O mesmo idioma, pero no mucho

Em Moçambique, o idioma oficial é português. Não é o português brasileiro, nem tão pouco o de Portugal. É uma mistura dos dois, com alguns toques regionais, com influência dos outros mais de vinte idiomas falados no país.

Assim, algumas palavras que usamos aqui, não são as mesmas do Brasil, como bicha (para indicar fila), casa de banho (para o banheiro), gelado (sorvete) e água fresca (no lugar de água gelada). Aqui também não se passa roupa, se engoma (ainda que só passem a ferro mesmo, sem goma). E tem mais: aqui as ruas não são asfaltadas, são alcatroadas. Na verdade, quando são, né? Em Maputo, a capital do país, basicamente só as grandes avenidas o são. Algumas das demais vias foram um dia, mas os buracos já são tantos que nem lembrança do alcatrão há. E ruas também não são ruas, são estradas. As estradas são auto-pistas, ó pá!

A delegacia é esquadra. O canalizador é o encanador brasileiro, que também é conhecido como bombeiro hidráulico em algumas regiões do Brasil. E o canalizador, claro, conserta canalizações.

Mas a influência maior de Portugal é notada especialmente na escrita (até pela recente independência). Então, aqui não se registra, se regista. Eu lembro que descobri isso ainda no Brasil, nos livros de Saramago, que não são “abrasileirados” quando publicados lá. A primeira vez que li, achei que fosse falha de revisão. Mas como vi outras vezes, resolvi checar e descobri que o original, em “português”, era mesmo registar.

E aqui também não se negocia, se negoceia. Sempre me pego a pensar que curioso é isso. Em que momento, no Brasil, colocaram um r a mais em registar? E onde foi que passaram a dizer eles negociam e deixaram de dizer eles negoceiam?

Isso sem falar nos inúmeros “c” que povoam todas as palavras, como objectivos, sector, actividades… Mas parece que isso está a cargo da reforma ortográfica que deve ser aplicada nos países de língua oficial portuguesa até o fim de 2012.

negoceia na manchete do jornal O País

Ainda acho estranho ler negoceia nas manchetes de jornal, por exemplo

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Tão bom encontrar outras pessoas no no-man’s-land linguístico 😀

  2. O que eu queria que caísse mesmo na reforma ortográfica era esses tais “acentos”. Porque com a linguagem da internet, acabamos perdendo um pouco disso.

  3. Uma informação a mais.
    Algumas pessoas mais simples do nordeste brasileiro, costumam falar “negoceia”.
    Legal saber que pode estar certo, pois, tem origem e não trata-se de um erro de quase não foi à escola.
    Abraço e parabéns pelo blog.

    • É verdade, Alexandre! Muito bem lembrado o negoceia do nordeste brasileiro. E muita gente do sul ou sudeste torce o nariz quando ouve. Aí está a origem: palavra corretíssima de nossa língua portuguesa.

      Obrigada.
      Sanflosi.

  4. Se somarmos a essas diferenças as expressões regionais e os dialetos, vira um “balaio de gato”, ops, de palavras e expressões. Negoceia aí para que na próxima reforma ortográfica retirem esses “c” hahaha! Bjs


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