Aqui também tem bicho-papão

imagem do bicho papão retirada do site Brasil EscolaO site Brasil Escola conta que o bicho-papão é uma figura mundialmente conhecida. Está no site: “É uma das maneiras mais tradicionais que os pais ou responsáveis utilizam para colocar medo em uma criança, no sentido de associar esse monstro fictício à contradição ou desobediência da criança”.

Aberrações de comportamento à parte (eu acho que conseguir a obediência pela imposição do terror é caso de internação), o curioso é essa coisa do comportamento se repetir em diferentes culturas, diferentes realidades, diferentes momentos.

Descobri recentemente que aqui em Moçambique, o hábito também existe. Ou existia, em tempos de menor controle dos direitos da criança. Quando os pequenos estivessem a perturbar, bastava dizer em voz grave: “vem aí o Lipanyangule, metam as crianças nos celeiros ou ele acabará com elas”. Pronto, não havia mais criança desobediente no local. Nem era preciso meter no celeiro. Bom, para mim, que sou analfabeta nos idiomas bantu, só o nome Lipanyangule já assustaria.

E qual é a história dele? A origem do nome é makonde. Sua existência remonta aos tempos da expansão européia pela região de Moçambique. Lipanyangule nasceu nos anos 1800, representante do povo bantu. Sobreviveu a várias guerras de expansão, até que, cansado de lutar, resolveu esconder-se. Em 1914, seu esconderijo foi invadido. Já sem forças para resistir, fugiu. Pouco tempo depois voltou ao esconderijo, que considerava seu paraíso. Em 1960, escapou à matança a que os moçambicanos foram sujeitos pela tropa colonial portuguesa, quando da guerra da independência. Fugiu de novo. Ficou conhecido como o “comedor de crianças que nunca morria”. Porque “nunca morria”, compreendo. Não achei na história onde o pobre pegou a fama de comer as crianças. Acho que só mesmo na imaginação de pais terroristas.

O Brasil Escola lembra ainda outros “bichos-papões” que aterrorizaram as criancinhas pelo mundo afora, em todos os tempos: na época das Cruzadas, “os muçulmanos projetavam esta figura no rei Ricardo, Coração de Leão, afirmando que caso as crianças não se comportassem da forma esperada, seriam escravizadas pelo melek-ric (bicho-papão)”. Em Portugal também é utilizado o termo bicho-papão, como no Brasil. Nos Países Baixos, o monstro leva o nome de zwart Piet (Pedro negro), que leva as crianças desobedientes para o Mar Negro ou para a Espanha (acho que depende do tamanho da desobediência). Em Luxemburgo, o bicho-papão (housecker) é um indivíduo que coloca as crianças em um saco e fica batendo em suas nádegas com uma vara de madeira.

Curioso como os elementos são os mesmos. Eu lembro que na minha terra também havia o “homem do saco”, que colocava as crianças malcriadas em um saco e levava embora. Não se podia brincar na porta de casa, porque aparecia o homem do saco. Na verdade, o objetivo era afastar as crianças das ruas, em especial quando moravam em avenidas movimentadas. Como eu sempre morava em apartamentos, isso não fazia muito sentido para mim. Mas para conhecidos que moravam em casa, era certeiro: eles até iam para a porta, mas ficavam a brincar na garagem, escondidos atrás dos carros. Imagino que hoje estejam todos na terapia.

Se quer saber mais sobre o Lipanyangule, clique aqui.

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. A Lucia Agapito tentou postar esse comentário, mas por problemas técnicos, não conseguiu, então, o faço em nome dela: “A origem do bicho-carpinteiro é aquela história que vai ganhando falhas de pronúncia ao longo dos tempos. O correto é: “esse menino não para quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro”. Outro dia o Eduardo postou no twitter um desses ditados: “hoje é domingo, pé de cachimbo”. Ele alertou que o correto é verbo pedir. Como é o dia do descanso, o correto é “hoje é domingo, pede cachimbo”, vai fumar e aproveitar o descanso hehehe. Outro que no popular erram: “quem tem boca vai à Roma”. O correto é: “quem tem boca vaia Roma (do verbo vaiar). A frase surgiu da rejeição que o povo tinha ao Império Romano… Outros podem ser visto no link abaixo. http://unedflo.blogspot.com/2009/09/prof-pasquale-cipro-neto.html
    Mas o popular tem força e o a riqueza da linguagem popular é que todo mundo entende, não é mesmo? Beijos”
    Muito esclarecedor, Lucia, obrigada!

    • Espetacular! Prova que podemos muito bem viver felizes e ignorantes por muito tempo. 😀
      Muito obrigado, Lúcia!

  2. Desses bichos-da-criançada o que mais me fazia rir pe o bicho-carpinteiro. Nunca percebi de onde veio (a lógica do papão até entendo) mas sereve para descrever uma criança irrequieta, traquina. Diz-se dela que tem o bicho-caropinteiro no cormo. Nem sei se é usado também aqui no Brasil, e se sim, se tem o mesmo sentido. 🙂

    • No Brasil também tem o bicho carpinteiro. E também é usado da mesma forma. Também não faço idéia de onde vem isso…

      Beijos.

      Sandra.

  3. Nem terapia ia dar jeito kkk! Sempre achei o fim da picada esta história de “bicho-papão” para assustar as crianças… Mas que só o nome desse aí já assusta lá isso é verdade rsss. Bjs


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