Lembra do FMI no Brasil? Ele está aqui em Moçambique…

Tenho escrito alguma coisa aqui e ali sobre economia. As coisas andam complicadas em Moçambique, com uso deliberado do dólar em vez da moeda corrente, o metical, alta de preços da gasolina, do pão, da farinha… A última vez que tratei do assunto foi sobre o uso de moedas estrangeiras para pagamento de serviços de saúde em Moçambique. Veja . E, então, Patrícia comentou: “No Governo Lula, um dos alívios que mais senti foi não ficar tendo noticias das ‘visitas’ do FMI pra renegociar as dívidas. No livramos disso e hoje o Brasil é visto diferente no mundo todo.”

De fato, um país que anda às voltas com pagamentos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) é tachado como submisso por aí afora. Ao ler o comentário da Patrícia, lembrei de um artigo que li recentemente, sobre ajuda internacional em Moçambique, de Paolo de Renzio e Joseph Hanlon, do departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escrito em 2007, sob o título original Contested Sovereignty in Mozambique: The Dilemas of Aid Dependence.

Depois de ler o artigo, impossível não ficar com a sensação de que o FMI só contribui para atrasar os países onde está. E, mais ainda, depois de ter tido a experiência da presença do FMI no meu país, até alguns anos atrás, essa sensação se torna lembrança e certeza.

No final dos anos 80, logo após a declaração de independência de Moçambique, que deixara de ser colônia de Portugal em 1975, as coisas até que iam bem: havia uma Comissão Executiva Nacional de Emergência, que coordenava as atividades dos doadores financeiros, como FMI, Banco Mundial e organizações não governamentais estrangeiras. Essas instituições doadoras tinham que informar ao governo de Moçambique o que iriam fazer no país, seguindo as políticas e diretrizes definidas pelo governo e trabalhando, freqüentemente, em províncias escolhidas pelo governo e não por elas mesmas. Esse sistema, com sucesso, levou os doadores a fazerem menos ações emergenciais de assistência e mais ações de desenvolvimento e reconstrução.

Mas com o tempo, para manter os empréstimos, FMI e Banco Mundial foram colocando as manguinhas de fora e impondo suas cartilhas. Para dar só um exemplo, no início da década de 1990, castanhas de caju representavam a maior exportação de Moçambique, sendo processadas em fábricas com até dez mil trabalhadores. As castanhas cruas cultivadas em Moçambique só podiam ser vendidas a empresas nacionais, que realizavam o beneficiamento. Então, o Banco Mundial exigiu a livre exportação da castanha crua, com diminuição das taxas de exportação do produto. O argumento do Banco Mundial era que os comerciantes externos iriam competir pela castanha bruta e os ganhos seriam superiores aos prejuízos que pudessem haver com desemprego. Era a “maravilha” do livre mercado. O governo resistiu por um tempo, mas acabou cedendo. Hoje, é comum vermos nos supermercados, castanhas cultivadas aqui, mas que foram assadas e temperadas na Índia. Custam muito mais para o consumidor. Custaram empregos e renda à Moçambique.

Análises recentes mostram que o governo estava certo ao se opor à política do Banco Mundial. Fábricas foram fechadas, milhares de postos de trabalho foram extintos e os agricultores que trabalhavam com castanhas de caju ganharam muito pouco.

Lendo o artigo de Paolo de Renzio e Joseph Hanlon descobri que muitas instituições doadoras têm cláusulas em seus programas de apoio que afirmam que a ajuda aos governos só pode ser dada se este estiver de acordo com os programas tanto do FMI quanto do Banco Mundial. Apoio humanitário alimentar chegou a ser negado aqui se o governo não passasse a seguir a política imposta por essas organizações. Com tamanha pressão, o governo foi aceitando, aceitando, aceitando…

Hoje, uma missão de instituição doadora chega a Moçambique a cada dia e apenas alguns poucos informam o departamento de cooperação internacional sobre o que estão a fazer aqui. Paolo de Renzio e Joseph Hanlon analisam que especialistas e acadêmicos locais, que poderiam estar desenvolvendo alternativas e caminhos para o desenvolvimento estão, em vez disso, trabalhando como consultores para essas instituições.

Eles mostram ainda que os doadores, em Moçambique, passaram a ter acesso a documentos-chave e informações estratégicas do país, envolvendo-se crescentemente em todos os estágios de definições de políticas públicas do país. Era contra isso que eu gritava no Brasil, quando ia a passeatas na avenida Paulista, no início dos anos 90, com a palavra de ordem Fora FMI e, depois, Fora FHC e o FMI, porque Fernando Henrique Cardoso, o FHC, foi um presidente que comeu com prazer na mão dessa instituição.

Eu não queria mais esse cenário no meu país. O FMI não permite a consolidação econômica dos países onde atua, os mantém seus servos e não dá possibilidade de serem nações autônomas. Para minha satisfação e meu orgulho, no atual governo, o Brasil passou de beija-mão a credor do FMI. E o mais importante é que, ao passar de devedor a credor, o Brasil não virou a casaca. Quando do anúncio do empréstimo, o presidente Lula da Silva afirmou que a iniciativa dá ao Brasil autoridade moral para continuar reivindicando mudanças no FMI.

Hoje, o Fundo elogia a economia brasileira, não pisa mais nela. No dia 6 de agosto desse ano a Rádio França International noticiou, sob o título FMI elogia recuperação da economia brasileira, que “depois de consultas com autoridades econômicas brasileiras, a diretoria do FMI disse que o desempenho notável foi sustentado pela forte política econômica, baseada na responsabilidade fiscal, na flexibilidade do câmbio e em metas de inflação”.

Leia mais:

Caju: a aposta económica que não vingou, do jornal O País.

Brasil e o FMI: de devedor a credor, do portal Administradores.com.br.

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] tratei aqui, dia desses, sobre o quanto é bom para o Brasil não ser mais subjugado por esse organismo […]

  2. É o meu maior alívio e o que desejo pra Moçambique é ela se livrar do FMI e de qualquer um que atrapalhe o crescimento do país. Hoje eu tenho essa noção de como éramos escravos deles.

  3. E quem empresta dinheiro sem exigir que se reze pela sua cartilha? Tem que dar um chapéu pra esses organismos internacionais e não passar o chapéu pra eles!!! Ainda bem que o Brasil se livrou dessa situação… Abraços
    Lucia Agapito

  4. […] See the rest here: Lembra do FMI no Brasil? Ele está aqui em Moçambique… « MOSANBLOG […]


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