A CPLP e o sentimento de patriotismo

Na semana passada acompanhei aqui em Maputo os Jogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Quem não sabe do que se trata ou quer mais informações, é só clicar aqui. Esse evento fez florescer em mim um sentimento interessante com relação à língua portuguesa. Interessante, mas não novo, nem para mim nem para o mundo, já que Fernando Pessoa o eternizou em suas palavras “Minha pátria é a língua portuguesa”.

No dicionário, uma das definições de pátria é “Nação em relação à qual se desenvolve sentimento de pertencimento e ligação afetiva”. Um dia vamos falar do conceito de nação, que é algo estranho para mim, mas não é esse o caso hoje. Aqui estamos para falar da pátria e da língua portuguesa.

Sou brasileira e minha primeira experiência de morar no exterior foi em Washington, nos Estados Unidos. Tá bem, eu sei que não é lá das melhores escolhas, mas foi por força das circunstâncias. Agora, estou em Moçambique. Há muitas diferenças entre os dois países. E quantas! Mas a mais facilmente sentida é que agora moro em um lugar cujo idioma é o mesmo de onde eu venho. Falamos a mesma língua, literalmente. Claro que há lá suas adaptações, mas isso até ao mudar do Norte para o Sul do Brasil é sentido.

E esse fato de falarmos o mesmo idioma nos aproxima fantasticamente. Tem a questão da identidade cultural também, muito maior aqui do que na outra experiência, da simpatia das pessoas com estrangeiros e diversos outros aspectos. Mas falar português acaba por permear tudo.

Isso ficou mais óbvio para mim justamente durante os jogos que reúnem os países de língua portuguesa. São oriundos de continentes diferentes, têm formações diferentes, características físicas diferentes, mas são uma só nação, um só povo, o povo da língua portuguesa. E, engraçado, me senti patriota. Patriota da língua portuguesa.

Por isso, lembrei Fernando Pessoa em A minha pátria é a língua portuguesa, no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa): “Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica… Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse… a orthographia também é gente.” (note-se que foi mantida a grafia original, ó pá).

O Livro do Desassossego você pode baixar inteiro aqui.

Saiba mais sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos aqui.

E se você gosta de literatura, não deixe de passar no Café Dom Henrique Literário, de um amigo que é heterônimo. você vai entender…

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24 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Gostei do seguinte artigo de Jose Eduardo Agualusa. Sinceramente gostei. Gostei mesmo:

    José Eduardo Agualusa: “A língua portuguesa em Angola – língua materna vs. língua madrasta. Uma proposta de paz”

    http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2013/04/o-nosso-idioma.html#comment-6a00d83451e35069e2017d42bd7920970c
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    CRIME !?… CRIME !?…. CRIME !?….

    CRIME CONTRA AS LÍNGUAS NACIONAIS (LOCAIS OU INDÍGENAS)

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    1. Crime no Brasil contra as LÍNGUAS INDÍGENAS cometida pelos PORTUGUESES E BRASILEIROS – Agualusa:

    “Deveriam existir cerca de 1200 línguas nacionais indígenas quando os portugueses desembarcaram nas praias deste vastíssimo território a que hoje chamamos Brasil. Actualmente, não existirão mais de 180. Este terrível massacre linguístico terá sido um dos maiores crimes cometidos pelos portugueses, e sobretudo por brasileiros, ao longo de cinco séculos.”
    _______________

    Meu comentário:

    2. Crime cometido em África contra as LÍNGUAS NACIONAIS (LOCAIS) pela COLONIZAÇÃO PORTUGUESA:

    – A política de ASSIMILAÇÃO que dividia os pretos nas Colónias Portuguesas em duas categorias: ASSIMILADOS e INDÍGENAS. Assimilados eram uma minoria de PRETOS que depois de satisfazerem alguns requisitos impostos para tal, passavam a ser considerados “CIVILIZADOS” e portanto “ CIDADÃOS PORTUGUESES” e deviam se comunicar SOMENTE em PORTUGUÊS e não na “LINGUA DE CÃO” (designação usada pelos colonos para as línguas indígenas). Por outro lado, os INDÍGENAS eram uma espécie de classe baixa, “INCIVILIZADA” que podia continuar a usar a “LÍNGUA DE CÃO” (línguas locais) sem ser muito incomodada.
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    3. Crime cometido em África contra as LÍNGUAS NACIONAIS (locais) POR NÓS PRÓPRIOS PRETOS AFRICANOS:

    Nos nossos países africanos, antigas colónias portuguesas há um CRIME HEDIONDO CONTRA AS NOSSAS LÍNGUAS LOCAIS, que está a ser cometida POR NÓS MESMOS AFRICANOS (e aqui acrescento: NÓS AFRICANOS PRETOS).

    Por exemplo a Constituição da República de Moçambique diz:

    “Na República de Moçambique, a língua portuguesa é a língua oficial”. E no parágrafo n.º 2 do mesmo artigo acrescenta: “O Estado valoriza as línguas nacionais e promove o seu desenvolvimento e utilização crescente como línguas veiculares e na educação dos cidadãos”. Numa referência às numerosas línguas bantu, faladas em Moçambique. ( De acordo com o parágrafo n.º 1 do artigo 5.º da Constituição da República de Moçambique (revisão de 1990).

    Embora desde a independência de Moçambique, o Estado moçambicano tenha advogado que valoriza e promove a utilizaçãos das “linguas nacionais” e muitas conferências, reuniões, colóquios, etc., tenham sido realizados desde então, mas na realidade pouco foi feito para se atingir este DIREITO CONSTITUCIONAL ao POVO.

    Em Moçambique só muito recentemente, 35 anos depois da independência, começou de MANEIRA TÍMIDA, o ensino bilingue (em português e língua nacional) em algumas escolas. Os professores, conforme acompanhamos na imprensa, têm se queixado da falta de apoio pedagógico, etc., para o ensino em línguas nacionais, isto é, sentem-se um tanto ou quanto ABANDONADOS por quem de direito devia lhes dar todo o suporte necessário para poderem trabalhar com eficiência.

    No nosso caso moçambicano a ÚNICA EXCEPÇÃO na valorização e uso das nossas LÍNGUAS NACIONAIS (locais) tem sido a RÁDIO MOÇAMBIQUE. E aqui aproveito endereçar um ELOGIO ESPECIAL A ESTE ÓRGÃO PÚBLICO DE INFORMAÇÃO.

    Por fim quero agradecer ao angolano BRANCO – José Eduardo Agualusa – por este artigo maravilhoso: “A língua portuguesa em Angola – língua materna vs. língua madrasta. Uma proposta de paz”
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    Africanos brancos como o angolano Agualusa são muito necessários nas ANTIGAS COLÓNIAS PORTUGUESAS, porque, quer me parecer que esses, (africanos brancos), NÃO TÊM O COMPLEXO DE ASSIMILADOS que muitos de nós PRETOS AFRICANOS ainda alimentamos. Hoje mesmo, ouvimos certos AFRICANOS PRETOS a ralhar com seus filhos quando lhes apanham a falar língua local: “NÃO FALA DIALECTO!” ou “NÃO FALA LÍNGUA DE CÃO!” ou “DA PRÓXIMA VEZ QUE TE APANHO A FALAR DIALECTO VAIS LEVAR PORRADA”. Repito: muitos dentre nós AFRICANOS PRETOS ainda sofremos do “COMPLEXO DE ASSIMILADOS”.

    Não quero com isso dizer que não haja um ou outro africano preto que esteja contra este CRIME CONTRA AS LÍNGUAS NACIONAIS (LOCAIS), mas estamos em número insignificante tomando em conta a proporção. Porque, nós (os pretos), sendo nós os falantes originários dessas línguas devíamos estar na dianteira na luta a favor do uso, ensino e promoção dessas línguas. Vejam, por exemplo, Portugal, que mesmo tendo feito pouco para a disseminação e divulgação da Língua Portuguesa no mundo, anda agora a propalar, pelos quatro ventos, que “SOMOS 250 MILHÕES DE FALANTES DO PORTUGUÊS NO MUNDO”. E, nós africanos pretos, o que fazemos com as nossas línguas nativas? Será que estamos à espera que Portugal e Brasil venham nos ajudar na preservação das nossas línguas nativas?

    Que haja mais AFRICANOS BRANCOS (e também mais africanos pretos) COMO O ANGOLANO AGUALUSA!

    KHANIMAMBO

    Miguel

    • Desculpem, corrijo: “crime… cometida” – “crime…cometido”

  2. MOÇAMBIQUE:
    LUSOFÓNO, ANGLOFÓFONO, FRANCOFÓNO, BANTÚFONO… – QUAL?

    A Ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Maite Nkona-Mashaban, enviada especial do Presidente Sul-Africano Jacob, falando na apresentação do “sentimento de pesar e consternação do Presidente Zuma na sequência do assassinato do jovem taxista moçambicano, Mido Macia, pela Polícia daquele país vizinho.”, disse:

    “Temos que ter a certeza de que incidentes desta natureza não voltarão mais a acontecer”, disse Mashabane, sublinhando os laços que unem os dois povos.

    “Nós somos membros da mesma família, FALAMOS A MESMA LINGUA e, também, estivemos juntos durante a luta. Por isso, queremos continuar a viver como uma família”, acrescentou.

    Caso Mido Macie: Guebuza recebe enviada de Zuma | Rádio …
    http://www.rm.co.mz/index.php?option=com_content&view=
    ____________
    Comentário:

    “FALAMOS A MESMA LÍNGUA” – disse a Ministra sul-africana.

    A que língua falada em ambos os países (África do Sul e Moçambique) se referia a Ministra Sul-Africana?: – PORTUGUÊS? INGLÊS? BANTU?

    Com certeza que ela estava se referindo a uma lïngua bantu: TSONGA (Changana) com muitos falantes nos dois países e uma das 10 (dez) línguas oficiais da África do Sul.

    Moçambique é um país muito privilegiado em termos da sua pertença a COMUNIDADES baseadas na língua:

    – BANTUFONIA (muitas das línguas bantu faladas em Moçambique também são faladas nos países vizinhos);

    – LUSOFONIA (CPLP: Angola, Brasil, Cabo-Verde, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, Timor-Leste);

    – ANGLOFONIA ( Moçambique membro da Commonwealth);

    – FRANCOFONIA – Moçambique membro observador da Francofonia – (“França é o único país europeu vizinho de Moçambique” palavras da Embaixadora Francesa em Moçambique (por causa das Ilhas Francesas no Oceano Ïndico);

    – ÁRABE – Moçambique integra Organização da Conferência Islâmica ( Árabe: LÍNGUA litúrgica da comunidade muçulmana moçambicana) –

    Moçambique: BANTÚFONO, LUSÓFONO, ANGLÓFONO, ETC. – Qual?

    Miguel

  3. Lusofonia, CPLP e Língua Portuguesa em Moçambique –

    QUANDO É QUE SE TOMOU A DECISÃO DE FAZER DA LÍNGUA PORTUGUESA A LÍNGUA DE ENSINO E LÍNGUA OFICIAL DE MOÇAMBIQUE?

    E QUEM IMPÔS A MOÇAMBIQUE A ADOPÇÃO DO PORTUGUÊS COMO LÍNGUA OFICIAL?
    ___________

    O Testemunho de SÉRGIO VIEIRA:

    (p.202 – do livro “Participei, por isso Testemunho”) – Sérgio Vieira:

    “Curiosamente, a decisão de criarmos o nosso próprio sistema de ensino, de se estabelecer o Instituto Moçambicano como estabelecimento de ensino secundário, com as AULAS EM PORTUGUÊS, com professores nossos, livros de ensino nossos tornou-se, já na segunda parte dos ANOS 60, um dos pretextos para o ataque contra a FRELIMO pelo grupo Gwenjere, Simando, Nkavandame.

    Os membros da ala anti-FRELIMO e anti-Mondlane denunciaram o USO DO PORTUGUÊS e exigiam que todo o ensino se MINISTRASSE em INGLÊS, pois que o PORTUGUÊS não passava de uma “língua do colono!” O Instituto Moçambicano tornou-se um alvo principal da ala contra o Presidente Mondlane e contra a linha principal da FRELIMO. Impossível convencer de que o INGLÊS também servira o COLONIALISMO BRITÂNICO e que NÃO HAVIA LÍNGUAS COLONIALISTAS E LÍNGUAS ANTICOLONIALISTAS. …”
    _____________

    (Pág. 334 – do livro “Participei, por isso Testemunho”) – Sérgio Vieira:

    A CONCP afirmou-se importante para que a LÍNGUA PORTUGUESA se tornasse “LÍNGUA OFICIAL” na OUA e depois nas NAÇÕES UNIDAS. Nas Nações Unidas, a acção conjunta de Moçambique, de Angola e do Brasil mostrou-se decisiva, uma vez que Portugal, que vivia de crise em crise POUCO FEZ NESSE SENTIDO. Há que dizer que Samora e Neto SEMPRE falaram em PORTUGUÊS na OUA e nas Nações Unidas. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé já haviam levado a OUA a fazer do PORTUGUÊS LÍNGUA OFICIAL.
    ____________

    (pag.545: do livro “Participei, por isso Testemunho”- Sérgio Vieira:
    “Existe uma organização dos países da LUSOFONIA, criada com uma vocação cultural pela iniciativa do saudoso embaixador Aparecido de Oliveira e o apoio do Presidente Sarny. Mesmo alargando o horizonte posteriormente, NÃO PARECEM VISÍVEIS OS RESULTADOS, talvez carência de uma verdadeira agenda comum que dê suporte à actividade, numa outra vertente que me parece real, a económica e comercial, mas cada país possui a sua própria agenda bilateral.

    Disse ao saudoso embaixador Aparecido de Oliveira, uma que dinamizou a formação da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: “Embaixador, sem a base da cooperação económica e da relação comercial, não se pode erguer o edifício da cooperação cultural. Na economia encontra-se o Mecenas que financia a Cultura.

    Fazer da língua portuguesa nossa língua oficial desde a Constituição de 1975, resultou de UMA DECISÃO EXCLUSIVAMENTE NOSSA e de NENHUMA PRESSÃO ou SUGESTÃO DO EXTERIOR. Esta decisão afirmara-se ainda em vida de Mondlane, quando os elementos reaccionários queriam que cessássemos de ensinar o português e de utilizar o português no nosso ensino. …

    Concordo com o que me disse o Presidente Figueiredo do Brasil, quando me recebeu em 1980 durante a visita oficial que efectuei a convite dos ministros Delfim Neto e Saraiva Guerreiro. Quando apresentei a PROPOSTA DO PRESIDENTE SAMORA de agirmos PARA FAZER DA LÍNGUA PORTUGUESA LÍNGUA OFICIAL NAS NAÇÕES UNIDAS afirmou:

    ‘O Brasil e Moçambique são os dois países MAIS IMPORTANTES DEMOGRAFICAMENTE. A responsabilidade de PROMOVER A LÍNGUA PORTUGUESA COMPETE-NOS EM PRIMEIRO.’ – (do livro de Sérgio Vieira: “Participei, por isso Testemunho”-pag.545

    ___________

    Meu comentário:

    1. Ainda em plena guerra contra o Colonialismo Português o Movimento que lutava contra o governo decidiu fazer do Português a Língua de Ensino nas suas escolas na Tanzania e futura Língua Oficial de Moçambique. Portanto, Portugal não estava em condições nenhumas de impor a esse Movimento o uso forçado da Língua Portuguesa. Foi uma decisão independente e soberana. E na altura a palavra LUSOFONIA não existia nem mesmo nos melhores dicionários portugueses.

    2. Segundo Sérgio Vieira quem pugnou para que a Língua Portuguesa se tornasse uma das línguas oficias na OUA e nas Nações Unidas? Foi Portugal? Não!

    3. Quem sempre falou em Português na OUA e nas Unidas? Foram os dirigentes políticos portugueses? Não! (Vemo-los nas RTP’s a discursarem em organismos internacionais em inglês ou francês e poucas vezes em português.)

    4. Quando nos primeiros anos depois da independência Moçambique negava ser país de “EXPRESSÃO” portuguesa não estava negando a oficialidade da Língua Portuguesa em Moçambique. Mais tarde quando aparece a “LUSOFONIA”, o então Ministro da Cultura, Mateus Katupa foi peremptório e claro ao dizer que: “MOÇAMBIQUE NÃO É LUSÓFONO – É BANTÚFONO”, para realçar que embora o Português seja a Língua Oficial de Moçambique, a MAIORIA DA POPULAÇÃO MOÇAMBICANA É FALANTE DE LÍNGUAS BANTU E NÃO FALA PORTUGUÊS.

    5. Será que os países da ANGLOFONIA obrigaram Moçambique a abandonar a língua portuguesa para poder ingressar na Commonwealth? Não! Será que os países da FRANCOFONIA obrigaram Moçambique a abandonar a língua portuguesa para que pudesse ser admitido como membro observador naquela organização? De maneira nenhuma! Não é esta uma forma de sucesso de uma diplomacia INTELIGENTE que realça o sentido de INDEPENDÊNCIA E DE SOBERANIA da parte dos moçambicanos?

    Khanimambo
    Miguel

  4. ‘MOÇAMBIQUE NÃO É LUSÓFONO – É BANTÚFONO”

    (Palavras do então Ministro da Cultura de Moçambique: Mateus Kathupa, conforme uma entrevista longa de 2 páginas no Jornal “O domingo” de Maputo há alguns anos atrás.)
    ————
    Lembrei-me daquelas palavras quando lí recentemente na Internet um texto da Sra. Sara Vale que fala de Moçambique como parte duma ”ÁFRICA PORTUGUESA”:

    Crónica
    Pequena nota sobre emigrar para a África portuguesa
    Viver em África não é fácil, nem mesmo em terra de herança portuguesa e boa gente. Clima, hábitos, cultura, dia-a-dia, aspectos tão simples mas com o poder de complicar tudo o resto …
    Texto de Sara Vale • 17/04/2012 – 10:42
    http://p3.publico.pt/node/2757?fb_comment_id

    —————-

    Meu comentário:

    As palavras do então Ministro da Cultura de Moçambique: “MOÇAMBIQUE NÃO É LUSÓFONO – É BANTÚFONO” – ilustram muito claramente o sentimento moçambicano quanto a esta questão da LUSOFONIA. Agora, quando uma PORTUGUESA diz ACTUALMENTE que existe uma “ÁFRICA PORTUGUESA” da qual Moçambique fazer parte, não é isso OFENSIVO? Não é isso uma visão NEOCOLONIAL que um CERTO número de Portugueses ainda mantém?

    Até 1975 na actual Praça da Independência, que no tempo colonial se chamava Praça Mouzinho de Albuquerque, em frente do edifício da Câmara Municipal da então cidade de Lourenço Marques, agora Maputo, havia uma inscrição que dizia: “AQUI É PORTUGAL”. Esta inscrição foi retirada aquando da Independência de Moçambique em 1975. Quando portugueses continuam a falar duma ACTUAL “ÁFRICA PORTUGUESA”, a que estão se referindo? Estarão se referindo a uma tal “ÁFRICA LUSÓFONA”? Afinal “AFRICA LUSÓFONA” e “ÁFRICA PORTUGUESA” são uma mesma coisa? Será que esses Portugueses podem também falar ACTUALMENTE duma “AMÉRICA LATINA PORTUGUESA”? Com este tipo de linguagem será que aqueles que acham que a “LUSOFONIA” – do ponto de vista de Portugal – é uma nova “BANDEIRA” portuguesa, não estarão com a razão do seu lado?

    A adopção da Língua Portuguesa como Língua Oficial de Moçambique não foi fruto duma imposição ou de um acordo linguístico com o Portugal. Como diz Mia Couto: “Foi uma decisão soberana” sem interferência de Portugal e nem de nenhum outro país.

    Mia Couto: “Apenas 40 por cento de moçambicanos falam português. E falam-no como segunda língua. Só 3 por cento têm no português a sua língua materna…
    …. Há 30 anos, a Frente de Libertação de Moçambique, ainda na guerrilha anticolonial, viu no idioma lusitano uma arma…
    … Em 1975, cerca de 80 por cento dos moçambicanos não falavam português. A popularização da língua é obra da independência…
    …O governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização. Mas não o fez por causa de um projecto chamado lusofonia. …”

    Lembro-me de ler na imprensa logo após a independência, que uma das coisas que o novo governo de Moçambique pediu a Portugal foi o fornecimento de PROFESSORES DE PORTUGUÊS. Qual foi a resposta de Portugal para este pedido? Pura e simplesmente: NENHUMA.

    Agora, não será HIPOCRISIA quando certos sectores portugueses levantam a “BANDEIRA” da língua portuguesa e propalam aos quatros ventos que somos 250.000.000 de falantes da língua portuguesa? Samora Machel, em 1985, em Portugal, disse, ironizando, que Portugal devia pagá-lo pelo serviço que ele estava fazendo pela difusão da língua e da cultura portuguesa no mundo. Não sei se algum dirigente político português, alguma vez já falou tanto português nos “fora” políticos e diplomáticos internacionais; em comícios populares em todo o mundo, como Samora Machel fez.. O que tenho visto muitas vezes é dirigentes portugueses nos “fora” políticos e diplomáticos internacionais falarem em Inglês ou Francês – mas Samora falava sempre em Português, não porque ele não pudesse se expressar numa outra língua – víamo-lo, algumas vezes, a corrigir os intérpretes quando traduziam mal as suas para inglês, por exemplo.

    O que significa ser a PORTUGUÊS a língua OFICIAL de Moçambique? Joaquim Chissano, então Presidente de Moçambique, lá para os anos 80, conforme lí na Revista “TEMPO”, explicou: “Significa que os documentos oficiais do governo são escritos e tramitados nessa língua. Não significa que seja proibido falar em público as línguas nacionais” – como alguns tem estado a interpretar.

    Moçambique NÃO É PARTE duma INEXISTENTE “ÁFRICA PORTUGUESA” .

    “MOÇAMBIQUE NÃO É LUSÓFONO – É BANTÚFONO” – (Mateus Kathupa, então Ministro da Cultura de Moçambique)

    Miguel

    • Correcção: “O que significa a Português” queria dizer: O que significa o Português ser a Língua Oficial de Moçambique?

      • Desculpem-me! Outras correcções: onde escrevi: “…acordo linguístico como o Portugal.”- devia ler-se:…”acordo linguístico com Portugal”. E “traduziam mal as suas para o inglês”: devia ler: “traduziam mas as suas palavras para o inglês”.

  5. A CPLP e o sentimento de patriotismo
    Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”
    ____________
    No âmbito da “A CPLP E O SENTIMENTO DE PATRIOTISMO” e a expressão de Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa” – gostaria de apresentar aqui na Mosanblog, por que acho pertinente, o meu comentário ao artigo publicado pelo Sr. Educastro na ElefanteNews, se me permite:
    Português, esse desconhecido
    18/05/2011 por eduacastro
    _________________
    Meu comentário:

    Gostei deste artigo interessante. Conta muitas realidades e verdades sobre a língua portuguesa e as línguas locais moçambicanas. Mas como moçambicano de 60 anos de idade, e muito atento às questões relacionadas com esta problemática das línguas em Moçambique, acho que há uns pequeninos exageros neste artigo, por exemplo quando diz:

    “Hoje há um movimento, grande até, para que Moçambique abandone o português e opte por uma ou várias línguas locais.“

    Eu não conheço esse ” MOVIMENTO, GRANDE ATÉ” que pugna pelo abandono do português para uma ou várias línguas locais. O que eu sei, e como foi bem dito neste artigo pelo Sr. eduacastro (“Português, esse desconhecido 18/05/2011 por eduacastro”): “O erro, no meu entendimento, foi deixar as demais línguas para segundo plano. Há pouco tempo começou um trabalho para ensinar as línguas maternas e em línguas maternas nas escolas (até visitei uma delas no interior). Ao renegar as línguas locais…”

    Então o que realmente acontece é que alguma parcela dos defensores e promotores da LUSOFONIA em Moçambique não estão gostando nada deste “trabalho para ensinar as línguas maternas nas escolas”, e interpretam esses passos tímidos de resgatar o valor das línguas locais, que foram “renegadas” pelo Governo Moçambicano pós-independência, como se alguém estivesse a tentar acabar com a língua portuguesa em Moçambique. O que realmente acontece é que com fim da “centralização estatal e partidária”, e com a revalorização dos poderes tradicionais (régulos), cultura tradicional, etc., isso despoletou este sentimento de que as línguas moçambicanas merecem um espaço maior na sociedade moçambicana. Aí os promotores da LUSOFONIA sentem que há uma ameaça à Língua Portuguesa – o que é pura “FANTASIA”. É certo que numa sociedade livre cada um tem as suas opiniões e ideias e até “FANTASIAS” infundadas, mas na minha percepção NÃO EXISTE NENHUM “MOVIMENTO, GRANDE ATÉ” contra a língua lusa em Moçambique – o que há, repito, é um sentimento cada vez maior de que tem que se resgatar o valor das línguas locais. Os “LUSÓFONOS” em Moçambique e Portugal é que estão AMPLIANDO com as suas “lentes” poderosas esta “FANTASIA” da suposta eliminação da língua portuguesa em Moçambique em prol das línguas locais e daí que o Sr. Educastro teve essa percepção de um “MOVIMENTO, GRANDE ATÉ” contra a língua portuguesa (não é culpa nem invenção sua, eu entendo).

    Outro acontecimento que alimentou essas “FANTASIAS” infundadas foi a aderência de Moçambique na COMMONWEALTH e ouve um barulho estrondoso em Portugal sobre por que Portugal deixou Moçambique dar este passo. Mas como bem disse Mia Couto:

    “Vale a pena recordar aqui uma espécie de tesourinho deprimente da nossa história recente. Todos nos lembramos como certos sectores da política portuguesa entraram em pânico com a adesão de Moçambique à Commonwealth. O que se passava? Os moçambicanos haviam traído a sua fidelidade ao idioma luso? As reacções de algumas facções foram de tal modo excessivas que só podiam ser explicadas por um sentimento de perda de um antigo império. A exemplo do sindroma do marido traído que, não reconhecendo autonomia e maioridade na ex-mulher, sempre se pergunta: com quem é que ela anda agora? Moçambique andaria, assim, com o inglês. Não se apenas tratava de adultério mas ainda por cima que mau gosto, logo um inglês, com todos os fantasmas históricos que isso comportava.

    Na realidade, as autoridades moçambicanas não mudaram a sua política linguística e o português permaneceu na sua condição de língua oficial e unificadora. Fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização. Mas não o fez por causa de um projecto chamado lusofonia. Nem o fez para demonstrar nada aos outros ou para lançar culpas ao antigo colonizador. Fê-lo pelo seu próprio interesse nacional, pela defesa da coesão interna, pela construção da sua própria interioridade.”
    (Mia Couto
    Conferência Internacional sobre o Serviço Público de Rádio e Televisão no Contexto Internacional: A Experiência Portuguesa)

    Outro pequeno “exagero” é quando diz: “Português não é língua materna de muitos moçambicanos, mas é a língua nativa de todos eles. “ Talvez seja minha limitação no conhecimento da língua portuguesa, mas dizer que o Português “é LINGUA NATIVA DE TODOS ELES”, acho uma expressão forçada e inaceitável do ponto de vista moçambicano. Como pode ser LÍNGUA NATIVA DE TODOS se cerca de 60% não fala português e mesmo uma certa porção dos cerca de 40% falam-no com muita dificuldade?

    Tirando esses pequenos “exageros” gostei do artigo na sua generalidade e muito KHANIMAMBO.

    Miguel

  6. A Língua Portuguesa em Moçambique *
    Mia Couto **
    Devia falar de letras, começo por números. Apenas 40 por cento de moçambicanos falam português. E falam-no como segunda língua. Só 3 por cento têm no português a sua língua materna.
    O idioma português não é a língua dos moçambicanos. Mas, em contrapartida, ela é a língua da moçambicanidade. Há 30 anos, a Frente de Libertação de Moçambique, ainda na guerrilha anticolonial, viu no idioma lusitano uma arma para a unificação do país e a construção da Nação. Aquele instrumento que servira a dominação colonial se convertia, nas mãos dos nacionalistas, no seu contrário – um troféu de guerra, um pilar de afirmação.
    Em 1975, cerca de 80 por cento dos moçambicanos não falavam português. A popularização da língua é obra da independência e os números com que abro este texto devem ser lidos nessa tendência de mudança.
    Mas esta apropriação da língua nacional coloca em risco as mais de 30 línguas indígenas dos diferentes grupos étnicos. Como garantir um convívio sem hegemonia? Existem sinais salutares de experiências de ensino bilingue. Contudo, o destino das línguas é governado por outras, mais profundas razões.
    …”
    * Texto publicado na antologia galega “Do músculo da boca”, Ed. Encontro Galego no Mundo, Santiago de Compostela, 2001. :: 09/05/2003
    ____________________
    Comentário:

    Somos 250.000.000 LUSÓFONOS? Não!

    Mia Couto dizia que : Apenas 40 por cento de moçambicanos falam português. E falam-no como segunda língua. Só 3 por cento têm no português a sua língua materna.

    Quer parecer que o caso Angolano é mais ou menos idêntico ao caso Moçambicano. Sabemos que em Cabo Verde a língua dominante na comunicação do dia-a-dia é o Crioulo e não o Português e dá-se quase o mesmo na Guiné-Bissau onde também a língua franca é o crioulo guineense e não a língua portuguesa. A situação da língua portuguesa no Timor Leste é ainda mais precária do que em todas as antigas colónias portuguesas.

    Neste contexto a pergunta que se levanta é: Sendo assim, por quê Portugal INSISTE em propagar pelos 4 ventos do mundo que somos 250.000.000 de LUSÓFONOS?

    Miguel

  7. LUSOFONIA – “A PÁTRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA”?

    O que disse um Professor Português de Literatura sobre a LUSOFONIA?
    ___________

    “Porque considera má a noção de lusofonia?”

    “Por duas ordens de razões. Começando pela mais abstracta, porque pressupõe que, como um dado adquirido, países ou pessoas possam estar unidos por uma língua. E pressupõe que uma língua faz parte de um património — e de um património que precisa de ser defendido. Não acho que as pessoas precisem de ser defendidas por uma língua, não acho que a língua seja património e, por isso, não acho que exista alguma necessidade especial de defender o património da língua. Esta é a primeira ordem de razões.

    Mas há outra, que é mais desagradável, que me faz entender a lusofonia como uma noção errada: a noção de lusofonia corresponde em Portugal, historicamente, a uma espécie de colonialismo de esquerda, à ideia de que, desaparecido o império colonial português, seria possível manter um seu substituto espiritual.”

    * In jornal “i” de 24 de abril de 2012 :: 25/04/2012
    Sobre o Autor
    Professor universitário da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
    Miguel Tamen, Chair
    Professor. PhD University of Minnesota. mtamen@fl.ul.pt
    ______________________

    Meu Comentário:

    Achei interessante esta abordagem do Professor Universitário da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Miguel Tamen.
    Me impressionou a afirmação do Professor, quando diz: “”…LUSOFONIA uma NOÇÃO ERRADA: A noção de LUSOFONIA corresponde em PORTUGAL, historicamente, a uma espécie de COLONIALISMO de esquerda, à ideia de que deparecido O IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS, ser possível manter um seu SUBSTITUTO ESPIRITUAL.

    Miguel

  8. LUSOFONIA

    E o que disse o Embaixador Cabo-Verdiano Luís Fonseca em 2008 sobre a LUSOFONIA, então Secretário Executivo da CPLP ?

    16/07/2008 – 10h40
    ‘Lusofonia’ é conceito restritivo, avalia secretário da CPLP

    Lisboa, 16 jul (Lusa) – O secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) considerou nesta quarta-feira que o termo lusofonia é restritivo por se referir apenas aos falantes de português e que devia ter agregados outros valores para evitar sentimentos de exclusão.

    Em entrevista à Agência Lusa a propósito da próxima cúpula da organização, em 24 e 25 de julho e cujo tema é precisamente a língua portuguesa, o embaixador Luís Fonseca afirmou que o termo lusofonia tem “gerado alguma controvérsia, sobretudo entre alguns intelectuais do sul”.

    “Nos países onde existem grandes faixas da população que não utilizam o português na sua vida, nas suas relações normais, pode levar a um sentimento de exclusão”, considerou.

    O diplomata cabo-verdiano deu como exemplo Moçambique, onde apenas 30 a 40% da população utiliza o português, questionando: “os outros 60% que não utilizam são lusófonos ou não?”.

    “Por exemplo, eu, quando estou com a minha família e com os meus amigos, falo crioulo, só uso o português nas minhas funções oficiais e isso acontece com muitos milhões de outros cidadãos de países de língua portuguesa”, frisou.

    Segundo Luís Fonseca, o conceito lusofonia “apenas como referência à utilização da língua portuguesa é restritivo”, pelo que defende a necessidade de lhe serem agregados “outros valores” como “a construção de sistemas democráticos, solidariedade, afetos, a própria vivência ou a facilidade de relacionamento entre os povos”.

    De acordo com o embaixador, o fato de este conceito ser utilizado sobretudo em Portugal “leva muitas vezes a que se fique com a percepção de que lusófono é tudo aquilo que é antiga colônia portuguesa”, levando a sentimentos de tentativa de “hegemonia da língua e cultura portuguesas”.

    “Em Portugal e no Brasil não há grandes problemas com esta questão porque o português é usado desde o berço e a lusofonia é um conceito que facilmente é apreendido como a forma de expressão em língua portuguesa”, disse.

    Incentivado a comentar as diferenças em relação a outras organizações cuja base é também a língua, Luís Fonseca fez uma comparação com a francofonia, defendendo que este conceito “se refere essencialmente à língua num contexto em que não há dúvidas de que há um país, a França, é considerado como referência fundamental desse grupo.

    “No caso dos países de língua portuguesa não existe esta referência fundamental porque todos os países são tratados no mesmo pé de igualdade e, caso se quisesse indicar um país como referência fundamental, começaríamos por ter logo um problema entre Portugal e o Brasil”, citou.

    Na opinião de Luís Fonseca, caso se agregarem os outros valores que unem a comunidade dos países de língua portuguesa, “o conceito de lusofonia será mais bem aceito”
    Lusa – 16/7/2008
    __________________
    Resumindo:

    – LUSOFONIA pode levar a um sentimento de “EXCLUSÃO”
    – Nos países africanos de Língua Oficial Portuguesa só uma MINORIA FALA PORTUGUÊS.
    – Portugal ao insistir muito neste conceito de LUSOFONIA levanta suspeitas de tentativa de “HEGEMONIA DA LÍNGUA E CULTURA PORTUGUESAS”
    _______________
    Meu comentário:

    Por aquilo que o Embaixador Luís de Fonseca falou podemos entender facilmente porque NOS INCOMODA BASTANTE – a nós africanos – aquela propaganda da RTP de que “somos 250.000.000 os falantes de português no mundo”.

    kHANIMAMBO

    Miguel

  9. Como é que os africanos de Língua Oficial Portuguesa encaram a LUSOFONIA hoje? Será que eles também têm este sentimento de pertença a uma “PÁTRIA ” cuja “BANDEIRA” é a LÍNGUA PORTUGUESA?
    _______

    – O que disse recentemente sobre a LUSOFONIA o antigo Presidente da República Joaquim Chissano e signatário da criação da CPLP?
    _______

    “Joaquim Chissano

    Numa palestra sobre os 40 anos do Jornal Expresso.

    O antigo estadista moçambicano, Joaquim Chissano, diz que “a lusofonia é ‘uma utopia útil’, que assenta numa língua comum, mas não pode ‘sufocar’ as culturas dos povos” dos países que a partilham.

    Foram muitas as dúvidas e provocações que Joaquim Chissano deixou numa das conferências que assinala os 40 anos do semanário Expresso, que ontem decorreu no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em Portugal.

    Sem arriscar dizer que um dia a lusofonia poderá deixar de ser utopia, Chissano questionou o termo e o conceito, falando na “inculturação” do espaço lusófono “por um dos povos”.

    Aliás, disse, “em Portugal, não se encontram as culturas” dos outros designados países lusófonos, são “visitantes” apenas.
    Ou seja, o conceito de lusofonia pode significar uma “exclusão da diversidade”, realçou.

    Segundo Joaquim Chissano, os “maiores desafios” são “como usar para interesse comum as capacidades de todos” e, antes disso, “definir o que é o interesse comum”.

    Em conclusão, Chissano entende que se a lusofonia “é um espaço cultural, tem ainda muito caminho por andar”. “O que nos una não é a língua, mas o que decidirmos fazer com ela”, concluiu.

    Jornal o Pais 8/1/13
    —————————-
    COMENTÁRIO:
    Não tenho comentário, limito-me apenas a resumir:

    1. “LUSOFONIA é uma UTOPIA útil.”
    2. ‘LUSOFONIA…não pode “SUFOCAR” as culturas dos povos que
    a partilham.”
    3. “…INCULTURAÇÃO” do espaço lusófono “por um dos povos”.
    4. “…em Portugal, não se encontram as culturas” dos outros
    designados países lusófonos, são “visitantes” apenas.
    5. “…lusofonia pode significar uma “EXCLUSÃO da diversidade”.
    —————————
    Khanimambo

    Miguel

  10. A Sanflosi disse:

    “Aqui estamos para falar da pátria e da língua portuguesa.”
    “Mas a mais facilmente sentida é que agora moro em um lugar cujo idioma é o mesmo de onde eu venho. Falamos a mesma língua, literalmente. Mas a mais facilmente sentida é que agora moro em um lugar cujo idioma é o mesmo de onde eu venho. Falamos a mesma língua, literalmente.”
    “São oriundos de continentes diferentes, têm formações diferentes, características físicas diferentes, mas são uma só nação, um só povo, o povo da língua portuguesa. E, engraçado, me senti patriota. Patriota da língua portuguesa.”
    “Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa.” –Fernando Pessoa.”
    _____________

    Acho um sentimento bonito, esse de ter uma pátria baseada no idioma. Acho bonito porque é uma brasileira que fala assim. E, uma coisa destas neste contexto, quando é dita por um brasileiro, fica bonito. Ma se a mesma coisa fosse dita por um português, seria ofensivo para o ouvido de alguns de nós moçambicanos, para não dizer, nós africanos.

    Lembro-me, que acompanhei isso pela imprensa moçambicana na altura, depois da independência, como delegações das antigas colónias africanas de Portugal abandonavam reuniões ou conferências com Portugal ao se usar a denominação de: “PAÍS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA” . Diziam: “Somos países de língua oficial Portugal e não países de expressão portuguesa”. Mais tarde foi introduzida a expressão “países lusófonos” que também causou muita polémica e rejeição por parte de alguns países africanos incluindo Moçambique. Outra expressão muito usada na Televisão Portuguesa que ofende a muitos moçambicanos é a de dizer que somos “250.000.000 de lusófonos” no mundo. Parecia que Portugal depois de ver arriada a sua bandeira nas antigas colónias africanas estava tentando hastear uma outra bandeira de colonização ou neo-colonização portuguesa baseada na Língua Portuguesa.

    Foi pelas razões mencionadas no parágrafo anterior que Portugal teve imensas dificuldades de introduzir a LUSOFONIA. Quem veio salvar a situação foi o Brasil na pessoa do seu Embaixador José Aparecido de Oliveira.
    ______________

    “O papel do Brasil na criação da CPLP foi determinante. O Brasil tem um protagonismo acrescido como potência regional, contando com 160 milhões de habitantes que lhe torna, simultaneamente, uma potência linguística.”
    (Diplomacia na CPLP – Grito Dum Criolo
    gritodumcriolo.blogs.sapo.cv/5364.html
    18 maio 2009)
    __________________

    “…O processo ganhou impulso decisivo na década de 90, merecendo destaque o empenho do então Embaixador do Brasil em Lisboa, José Aparecido de Oliveira.”
    (Histórico – Como surgiu? – CPLP
    http://www.cplp.org/id-45.aspx

    __________________
    9.7.08
    José Aparecido de Oliveira: Idealizador da CPLP é homenageado em Belo Horizonte
    Ministro da Cultura, governador de Brasília, ex-embaixador do Brasil em Portugal e idealizador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
    Publicado pela Embaixada de Portugal – Brasília em 9.7.08
    ______________

    Pelo acima exposto não resta sombra de dúvida que algo dito por um brasileiro, neste contexto, perante os ouvidos de nós africanos de Língua Oficial Portuguesa, tem uma CONOTAÇÃO TOTALMENTE DIFERENTE de se a mesma coisa for dita por um português. Portugal, nos olhos de muitos de nós africanos, ainda traz consigo o “fantasma” de colonialismo nas suas costas. E a vantagem do Brasil é que não tem essa “sombra” nefasta.

    Voltando para o princípio: Como é que os africanos de Língua Oficial Portuguesa encaram a LUSOFONIA hoje? Será que eles também têm este sentimento de pertença a uma “PÁTRIA ” cuja “BANDEIRA” é a LÍNGUA PORTUGUESA? Abordarei esta questão noutra oportunidade.

    • Miguel, acredito que essa diferença de percepção se dá porque nós brasileiros, moçambicanos, angolanos e outros somos como irmãos. Portugal, mesmo que faça parte da mesma família, não será visto como irmão em virtude da história. Mas fico, de fato, muito feliz em ter esse vínculo de união com outros povos tão maravilhosos, como o moçambicano.

      Abraços.

      • KHANIMAMBO, na bonga, na khensa (Obrigado, agradeço, grato)

  11. […] a nossa pátria é a língua portuguesa, como nos ensinou Fernando Pessoa, o prêmio literário Leya acaba de nos expor à realidade da […]

  12. […] falei aqui que o aspecto com o qual eu mais tenho me identificado ultimamente na cultura de meu país é o […]

  13. Vou esperar o post de nação para expressar meu pensamento sobre essa coisa de nação X lugar X pertencer… mas com relação a “Minha pátria é a língua portuguesa” eu sou 110% patriota hahaha. Como disse a Patrícia, as pessoas estão assassinando a língua com a história do computador. Volta e meia um sobrinho me critica porque não consigo usar o “comportuguês” deles rsss. Daí me justifico que tenho dificuldade para abandonar os acentos e usar o “kasa” e outros termos: afinal já dei aulas de português e sai meio no piloto automático hehehe. Mas a verdade é o que você bem colocou: ignorância das pessoas somada a velha preguiça que não as deixam pesquisar e procurar saber os termos, grafias, sintaxe e empregos corretos da nossa Última Flor do Láscio! (fui longe hein? kkkk) Grande abraço.
    Lucia Agapito

  14. Nunca fui patriota. Acho até que tenho uma certa aversão a patriotismos e nacionalismos. São redutores do que é a espécie humana. Se fosse patriota segundo esta definição “nação em relação à qual se desenvolve sentimento de pertencimento e ligação afetiva”, para já teria que substituir “nação” por “lugar” e pensaria em Lisboa, Nova Iorque, Brasília, Montpellier e Amsterdão. Não dá para ser patriota assim 😀

    • David, deves ter percebido no texto que comentei “Um dia vamos falar do conceito de nação, que é algo estranho para mim”. Na verdade, meu pensamento vai muito ao encontro do seu, sobre a redução do que é a espécie humana. Quem sabe esse não é um post a ser escrito a quatro mãos? 😉

      • Eu percebi isso sim e estou contigo para escrever esse post! 😉

        PS: como fico emocionado de te ver escrever “deves” 😛

  15. Que se diga a diferença do bolo e da torta. Mas também amo a língua portuguesa e por isso, sempre tive vontade de conhecer países de lingua portuguesa. Meu sonho antes era ir trabalhar no Timor Leste, justamente por ver o governo trabalhar com a educação na lingua portuguesa. Lembro quando vi, Xanana Gusmão na Câmara aqui e me deu essa vontade de ir pra lá. E também conhecer a Ilha da Madeira. Hoje, é Moçambique, por motivo óbvio. Hoje sinto um problema em escrever. Com o computador, acabamos escrevendo um pouco errado, principalmente em relação aos acentos. Mas que também me sinto patriota, isso é verdade.

    • Bolo é bolo e torta é torta. Só em Brasília existe essa confusão! 😀
      E Pat, atenção que na Madeira fala um português que só eles entendem 😀

    • É, Pat, sinto dizer, mas a diferença de bolo e torta não é um bom exemplo. Porque não é como o caqui e o dióspiro, que são duas palavras para tratar a mesma fruta, e as duas tem suas origens e seu sentido de existir. Bolo e torta são substantivos que indicam coisas diferentes e só em Brasília um se faz passar pelo outro. E a razão disso é a ignorância das pessoas, no sentido menos ofensivo da palavra e mais literal: ignoram o que consta nos dicionários. E no google! hahaha.


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