Papo de manicure

Fui à manicure. E manicure, cabeleireiro, depilação, são lugares onde se filosofa sobre a vida. Cada hora em um desses lugares renderia um tratado sociológico. Hoje não foi diferente.

No pequeno salão onde só se faz manicure e pedicure, éramos cinco: duas manicures, duas clientes sendo atendidas (entre elas, eu) e uma terceira esperando. A moça que esperava e eu podíamos ser consideradas as “tias” do lugar. As outras três tinham lá seus 20 anos, uns a mais, uns a menos.

Havia também um sexto elemento importantíssimo: a televisão. Afinal, em geral, os assuntos tratados nesses locais são baseados ou no que está a passar na televisão ou no que está escrito nas revistas de fofoca. Nesse salão não há revistas de fofocas à disposição. Logo, o assunto é pautado pela TV.

Na tela, Celso Zucatelli e sua turma no programa Hoje em Dia, da TV Record. Os assuntos: caso do goleiro Bruno, que seria responsável pelo desaparecimento de Eliza Samudio, e um outro caso de crime passional que eu ainda não tinha ouvido falar e agora não lembro os nomes dos envolvidos.

Então começam os comentários. Vale dizer que brasileira ali, só eu.

— Vocês brasileiros vivem muito a paixão. Não diferenciam paixão e amor, disse a manicure que não me atendia.

— É verdade, depois, quando acaba, porque paixão ou acaba ou vira amor, acabam com a mesma intensidade. Não é terminar um relacionamento. É tirar a pessoa do mundo, filosofou a que me atendia.

— É por isso, eles vivem a paixão. E é tudo muito rápido, voltou a falar a primeira.

— A gente sempre está a ver esses casos na televisão, lá vocês são muito violentos com as coisas de amor, disse a cliente que estava a ser atendida ao meu lado.

E a manicure que me atendia:

— No Brasil tem muito essas histórias de conhecer e já ir beijando, vocês não valorizam um beijo, um gesto de amor, tudo é muito fácil.

— Aquela Giovanna Antonelli, já casou umas quatro vezes. E toda vez é para sempre. Os brasileiros são assim: conhecem a pessoa, já beijam, já tudo… e em algumas semanas fazem tatuagem com o nome do outro no corpo e casam para sempre. E não dura um ano, analisou friamente a minha colega cliente.

Então, a manicure que a atendia contou seu caso particular:

— Outro dia saí com um gajo. Fomos com uma turma tomar uma cerveja, ver um jogo de futebol do Mundial. Depois, ele disse que ia me deixar em casa. Estávamos a chegar em casa, encostou o carro e conversamos um pouco. Para mim estava bom parar ali e nos vermos de novo outro dia. Mas ele já veio logo querer me beijar. E eu “Espera lá! Nem conheço você. Nos falamos duas vezes por telefone, hoje saímos, vamos com calma. Não vou estar a te beijar assim”.

E ela reclamou para nós que o tal gajo teria dito imaginar que ela fosse uma pessoa “moderna”. Ela respondeu que se “isso” é ser moderna, ela não é não. E estava lá no salão, toda convencida de ter feito a coisa certa, “não ia ser assim que ia sair a beijar um gajo”.

Ao fim, a manicure que me atendia acusou:

— É isso. A gente valoriza o que faz. Não vamos sair a beijar assim. Meu beijo vale muito. Tenho que sentir que vai ser bom para mim também e vai ter algum sentido. Mas agora, aqui estão a querer que seja assim como lá. Já estão a inventar esse negócio de ficar.

É, minhas amigas, é a influência da televisão brasileira em vossas vidas…

Aliás, sobre isso já falou Eduardo Castro, no ElefanteNews, com uma matéria da TV Brasil. Veja aqui.

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. E eu que sempre disse que dos dois lados do oceano, amar e odiar são palavras que as pessoas usam com demasiada leviandade. 🙂

  2. Se o negócio de “ficar” já chegou por aí, então as africanas agora já estão perdidas kkk.
    Fiz um trabalho na UnB, na época de faculdade, sobre a influência da televisão na criação dos filhos. Ainda bem que eu podia apresentar uma hipótese e a conclusão tanto podia ser uma comprovação ou uma antítese… porque no final das contas nem eu me convenci se a TV educa ou deseduca! MAS O CERTO É QUE, PARA OS MEUS VALORES, ESTÁ HAVENDO MUITA PERMISSIVIDADE ENTRE AS GERAÇÕES ATUAIS!!!

  3. Aqui começou assim mas com a televisão, hoje é diferente. Com certeza, a proxima geração da Africa vai ser diferente delas. Já vai ver muitas coisas dessas como normais. E a televisão chega em todo lugar. E a conversa virou universal.


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