Imagine!

Certa vez, um colega de trabalho que ainda pouco me conhecia perguntou no meio de um diálogo: “Você é de São Paulo, não?” E eu respondi que sim: “Como você percebeu?” A resposta foi a mais inesperada: “Ah, por causa do imagine”.

???

Quando alguém pede desculpas por alguma coisa tola, como esbarrar em mim no meio da rua ou pisar no meu pé sem querer, eu respondo: “Imagine”. E desde que me conheço por ser falante é assim. Como é que eu ia saber que isso é coisa de paulista? Nasci lá, todos a minha volta faziam igual… nem imaginava. Passei a prestar atenção só a partir desse dia.

Tempos depois, outro colega de trabalho, que veio a se tornar grande amigo, o David (os frequentadores do Mosanblog já o conhecem, especialmente por essa aparição aqui), que nasceu em Guiné-Bissau e mora em Brasília, comentou sobre as primeiras vezes que ouviu essa expressão nessas circunstâncias.

Ele disse que as pessoas falavam “imagine” e ele ficava tentando entender o sentido desse verbo naquele contexto: “Mas ela quer que eu imagine o quê? Estou só a pedir desculpas”. Os portugueses e seus colonizados não brasileiros são assim, literais.

Agora, imaginem (no sentido mais puro da palavra) vocês o que eu tenho passado aqui em Moçambique, cercada de “Davids”. É uma expressão tão natural para mim, que eu uso desde sempre, que sai da boca sem eu pensar, como ato-reflexo: alguém esbarra em mim, pede desculpas e eu: “imagine”. Vocês não têm idéia de quantas caras de parvo eu vejo por dia…

A última foi ontem, andando com o Otto. Na direção contrária vinha uma moça com um cão dez vezes maior que ele, que veio se lambendo na direção do meu cãozinho. E o Otto, medroso que é, se encolheu todo, quase atravessou o muro de uma casa. Então a moça, puxando seu cão e com cara envergonhada: “Desculpe”. E eu:”Imagine”. Pela cara que vi, ela ficou imaginando o meu cãozinho na bocarra do cachorrão dela, achando que eu estava brava com a situação.

Mas faz parte da minha adaptação na vida por aqui tentar mudar as coisas esquisitas que trago da linguagem brasileira. Vou me esforçar sinceramente para responder “não por isso” ou “não foi nada” nessas situações. Acho que fica melhor, não?

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Este é pare mim, não é? Demorei mas encontrei!

    O “imagine” é um deles. O outro que até hoje me causa confusão é o “pois não?”. Cada vez que ouço essa resposta dá-me vontade de pedir desculpas e seguir no meu caminho 😀

  2. “Coisas esquisitas da linguagem brasileira?”
    Imagine! hahaha
    Se aqui dentro do nosso Brasilzão ficamos com caras de parvos com algumas expressões, imagino o seu IMAGINE por aí… Desculpa o trocadilho hehehe
    Você me fez lembrar uma propaganda que passava na TV e que a moça discordova dizendo “aonde”, lembra?
    Esse português dá nó em moçambicanos também, viu?
    Abraços
    Lucia Agapito

  3. kkkk Eu que fico aqui imaginando as caras das pessoas aí. Mas lembro que meu pai falava que a melhor coisa é ser entrangeiro e poder fazer ou falar qualquer coisa dessas pois eles acham que é coisa de estrangeiros mesmo.


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