Aids e a cultura local

Uma das coisas mais importantes quando se faz uma ação para contribuir com o bem-estar da população e melhoria da qualidade de vida é ter a preocupação de não ir contra a cultura do público com o qual se vai trabalhar. Com essa preocupação, é possível perceber que pode haver diferentes visões de bem-estar e qualidade de vida. Eu preciso de certos itens na minha vida para ter bem-estar, meu vizinho precisa de outros, alguém que mora em outro país precisa de outros que não têm nada a ver com os dois primeiros. Ou seja, cada indivíduo é único, tem suas crenças e suas preferências e deve ser respeitado como tal.

No Mosanblog já citei algumas vezes a questão da Aids na África (veja aqui e ali). É algo muito presente, porque há um grande número de pessoas infectadas e esse número cresce assustadoramente, inclusive entre as crianças. Então, o assunto está sempre nos jornais, seja porque vão construir uma fábrica de anti-retrovirais, seja porque saiu uma nova pesquisa com o número de infectados, seja porque em algum país só um tipo de profissional está tendo acesso ao tratamento, enfim, todo dia temos notícia sobre Aids. E, em geral, não são das melhores.

Todo dia também tem muita campanha sobre o tema. Na televisão e no rádio, em especial, há propagandas institucionais em todos os horários. Há um consenso de que ninguém quer ter Aids. Aliás, parece que, em geral, ninguém quer ficar doente, não é mesmo? Só quem já tem alguma doença, como um desvio psicológico. Então, fazer campanhas para evitar a disseminação de uma doença é muito louvável.

Mas não é nada louvável ignorar o público para quem se está falando nessas campanhas. Enquanto o vírus HIV/Sida (Aids) está sendo descontroladamente transmitido na África, a USAID (Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional, na sigla em inglês) patrocina uma propaganda na televisão de Moçambique (e deve fazer em outros países da África também), claramente ignorando as culturas locais, apresentando como solução para a questão da Sida a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. É só isso que eles sabem dizer: “sexo só com sua esposa ou seu marido”.

Pela lei moçambicana, a poligamia contraria uma das regras essenciais do matrimônio, que é a igualdade dos cônjuges e foi ilegalizada com a Lei da Família, de 2004. No entanto, a poligamia é aceita e praticada em vários pontos do país. Sabe aquela história da lei que não pega? Então…

O artigo Poligamia: tudo em nome da “tradição”, de Yolanda Sithoe, que está no site da WLSA observa que a questão da poligamia em Moçambique “é interiorizada e socialmente aceite”. Yolanda conta: “Encontrei professores primários com 24 anos de idade, já com duas esposas e vivendo em situação conjugal (casamento e união de facto) há mais de três anos. Questionados sobre o porquê desta opção, respondiam que “a primeira não conseguia conceber, então tive que arranjar uma outra”. Entre os camponeses e vendedores, a situação era justificada com respostas do tipo, “precisava de mais alguém para ajudar na machamba [terreno agrícola para produção familiar] porque o trabalho é muito duro, tenho duas, três machambas e sozinho é difícil”.

Vejam bem. Não estou aqui pregando a poligamia. Até porque seria incoerente com a minha atitude pessoal. Mas ocorre que não podemos impor aos outros o nosso estilo de vida. Eu sou monogâmica, mas entendo que não seja assim para todo mundo.

“No norte de Moçambique, por exemplo, de maioria muçulmana, a poligamia é prática comum. No litoral da mesma região, relações com múltiplos parceiros, especialmente entre os jovens, são aceitas como regra. Já no sul, de maioria católica, os negros com algum poder ou dinheiro têm várias amantes e namoradas, além da mulher em casa.” Essa análise foi feita pelo jornalista Aureliano Biancarelli, no documeno Diário de Moçambique.

O Diário de Moçambique foi produzido pelo programa brasileiro de DST/Aids, que veio ao país por meio de um acordo de cooperação. Ele revela ainda que há a informação de que “os fundos que chegam do governo dos EUA, por exemplo, vêm com o carimbo de que não podem ser usados para incentivar o uso do preservativo. Devem ser gastos para pregar a abstinência, o retardo no início das relações e a redução no número de parceiros. Algumas instituições religiosas vão pelo mesmo caminho.” Como assim? Mandam o dinheiro para resolver um problema tão sério, mas mandam junto seus valores, suas convicções, seus padrões de comportamento e, assim, o recurso se torna muito menos eficaz.

Isso é muito triste, porque mostra claramente que não estão querendo resolver o problema e sim mudar a cultura de um povo. Talvez a poligamia deva mesmo ser discutida, devido à questão das igualdades de direitos entre homens e mulheres, pelo subjugar de um gênero pelo outro e porque podemos vir a entender que não é o melhor. Mas isso leva décadas para acontecer. Não se muda crenças religiosas e culturas tradicionais assim, com campanha na televisão. E a questão da Sida é urgente.

O que vejo como solução mais imediata é a disseminação do uso da camisinha. Com quantos parceiros a pessoa tiver, usar sempre o preservativo. E, em paralelo, a realização do teste de HIV. Porque a questão da procriação aqui também é muito forte. Não ter filhos não é o normal. Logo, usar preservativo, que evita engravidar, também não é normal. Desta forma, o melhor é fazer campanha para ter o teste e, uma vez detectado que aquele casal não tem HIV, aí sim, que se deixe engravidar. Além disso, é preciso informação, muita informação, especialmente para esses que decidem engravidar e vão ter relações sexuais sem camisinha. Mas informação útil e adaptada ao público ao qual se destina.

Campanhas nessa linha são feitas pelo próprio governo de Moçambique, com o slogan “Prova teu amor, faça o teste de HIV/Sida comigo”, e pelo governo brasileiro aqui na África, com distribuição de camisinhas. Eduardo Castro mostrou na TV Brasil uma ação que foi feita em África do Sul, durante a Copa 2010. Acompanhe aqui.

Anúncios

The URI to TrackBack this entry is: https://mosanblog.wordpress.com/2010/07/05/aids-e-a-cultura-local/trackback/

RSS feed for comments on this post.

2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Aspectos culturais e atitudinais levam séculos para serem formados e para serem alterados e o problema da AIDS é imediato como você bem colocou. É um erro sem tamanho querer impor a cultura de um povo sobre outro. Por isso temos que louvar a iniciativa do governo brasileiro. A maior preocupação é de fato tentar conter a infecção nas gerações futuras! Parabéns pela matéria.
    Boa semana!
    Lucia Agapito

  2. É triste ver que interesses pessoais e religiosos de uns atrapalham um população que precisa de recursos pra ficar livre do problema da Aids. Parabens ao Governo brasileiro pela iniciativa.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: