Avenida Mártires de Mueda

Eu só queria entender o nome da rua onde moro: avenida Mártires de Mueda… e acabei caindo em uma avalanche de informações sobre a história de Moçambique e acusações de mau uso dos fatos históricos, para beneficiar esse ou aquele ou fazer a narrativa ficar mais forte.

Todos sabemos que a história sempre é contada a partir da visão de uns e não de todos — o que me parece até impossível — e por isso temos alguns relatos estranhos como quando se fala apenas da descoberta do Brasil por Portugal e não da invasão que o segundo cometeu no primeiro. No Brasil, ainda há quem fale em revolução de 1964 e não golpe militar que é o que me parece mais próprio. Enfim, mas não é essa a história de hoje.

Como já disse, encontrei muita informação e muita contra-informação sobre os Mártires de Mueda. De toda forma, como o tema me parece interessante, partilho aqui com vocês. Quando soube que iria morar nessa rua, procurei na internet quem seriam os mártires de Mueda e por que eram mártires os de Mueda. Pouca coisa encontrei. Estava de saída do Brasil, não tive muito tempo de investigar melhor, deixei para entender quando me instalasse aqui.

Províncias de Moçambique - Cabo Delgado ao Norte, em destaqueAgora, exatamente dois meses depois de nossa chegada a Maputo, dou-me com a celebração dos 50 anos do Massacre de Mueda (como está no jornal O País desse 16 de junho de 2010). No mesmo jornal, consta que em 1960 cerca de 600 moçambicanos “foram brutalmente assassinados pelo regime colonial português, quando tentavam reagir à opressão colonial em Mueda, província de Cabo Delgado” (Norte de Moçambique – em destaque no mapa).

O fato teria ocorrio quando centenas de moçambicanos se juntaram em frente ao então posto administrativo de Mueda exigindo ao governo colonial português a autodeterminação. De acordo com o jornal, a ação teria assinalado um dos últimos episódios da resistência dos moçambicanos à opressão colonial antes de se desencadear a luta armada pela libertação nacional.

Em outros lugares, encontra-se o número de 500 pessoas mortas. No artigo Os heróis de Mueda, o historiador Michel Cahen, conta que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), em seu jornal publicado em Argel, cinco anos depois do ocorrido, fala em 150 mortos. O site Moçambique para Todos afirma que os mortos não passaram de 17 e alguns teriam morrido pisoteados pela multidão em fuga. Diz ainda que não se pedia à altura a autodeterminação e sim a independência de Cabo Delgado para juntar-se à Tanzânia.

O que parece certo é que a ação teve um significado importante para a história do país, visto que, a partir dela, ficou claro que não haveria possibilidades de se conseguir independência pacífica em Moçambique. Em toda leitura que fiz, destaco o que Michel Cahen escreveu em seu artigo: “dez ou seiscentos mortos, o significado político de Mueda não muda, abriu uma nova Era”. E também penso que, independente do número de vítimas, qualquer morte causada por violência deve sempre ser relembrada, para evitar repetições.

Quem quiser ir mais fundo nessa história, leia:
Quantos morreram em Mueda?
Os heróis de Mueda

Há ainda o filme do moçambicano Ruy Guerra — aquele mesmo que dirigiu Ópera do Malandro e Quarup — intitulado Mueda: Memória e Massacre, de 1978.

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Published in: on 16/06/2010 at 18:17  Comments (4)  
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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] mas tinha pouca coisa na internet. Pois chegou o dia dos Mártires de Mueda e minha mulher Sandra fez um post no Mosamblog sobre eles. Veja lá que interessante como a História é […]

  2. Mosanblog é cultura e memória sim porque quando sobrevoei Maputo (como contei no comentário da outra matéria), vi essa rua e ainda fiquei pensando quem seriam esses “Mártires”? Agora já conheci mais essa história africana! Show… Bjs

  3. O massacre de Mueda foi para Moçambique o que o massacre de Pidgiguiti na Guiné: um fator chave para escalada dos movimentos de libertação nacional, e posteriormente da própria independencia das ex-colonias. E a história é sempre escrita pelos “vencedores”, não é? Se tens curiosidade por esse periodo, olha este link:http://www.xiconhoca.net/GuerraColonial08Dez2007/GuerraColonial.htm
    Beijo

  4. Sandrá é cultura e memória.


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