Dólar ou metical?

Semanas depois de chegarmos em Moçambique, vi no jornal O País a notícia de que algumas faculdades estavam a cobrar as propinas (que aqui significam mensalidades, para ficar bem claro!) em dólar e não em metical, a moeda do país. O ministério da educação respondia que iria apurar e isso não podia ser.

No entanto, conversando na rua com as pessoas o que ouvi foi: “Ixi! Algumas? Não são algumas não, são todas e todo mundo o sabe!” Bem, pareceu-me à altura que o ministério não sabia, mas que então faria algo para colocar ordem na casa. Pois se o país tem uma moeda, as mensalidades escolares devem ser cobradas nela.

Então, alguns dias depois fui abrir conta em banco e descobri que aqui as pessoas podem escolher ter conta em dólar ou metical. Hum… estranho. Patriota que sou do país alheio, abri em metical.

Ao pagar o primeiro aluguel, o senhorio me avisou que gostaria que o pagamento fosse feito em dólar, na sua conta tal e tal do banco tal, em Moçambique. Fui ao banco e informei que tinha uma conta em metical e precisava transferir tal valor em dólar para outra conta. O caixa imediatamente adivinhou: “ah, é para pagamento de renda (aluguel)? Isso é fácil, diz o valor em dólar e tiramos o respectivo em meticais da sua conta e o depósito é feito na conta do dono da casa”. Pareceu-me uma transação bem comum, o camarada até soube de cara que era para pagamento de renda…

Há dez dias, o mesmo jornal O País, em seu caderno “Económico”, trouxe uma matéria especial intitulada Até que ponto estamos dolarizados? Àquela altura até a mulungo aqui já sabia que estávamos até a cabeça.

Mas o jornal foi esclarecedor ao trazer o texto da lei que, em 2009, abriu espaço para que os cidadãos passassem a pagar as contas com divisas dos países de que são provenientes (pelo que percebi, desde que sejam provenientes de países cuja moeda é o dólar ou o euro). Isso provavelmente, pelo grande número de estrangeiros que trabalham no país, especialmente em organizações internacionais de ajuda humanitária. A lei 11/2009 estabelece que o pagamento em moeda estrangeira é feito sem necessidade de autorização do Banco de Moçambique, a autoridade emissora no país.

No entanto, na mesma matéria, o governador do Banco de Moçambique afirma que o ministério da educação vai produzir um aviso para pôr fim à faturação em moeda estrangeira nas instituições de ensino, uma vez que o artigo 106 da lei 2/2006 estabelece que quando as transações forem efetuadas em território nacional, a faturação deve ser emitida na língua e moeda nacional. Percebi assim que se pode pagar em outra moeda mas a cobrança tem que ser em metical.

Então, chega em casa a conta de água, da empresa Águas de Moçambique, a fatura está toda escrita em português, e o valor a ser pago em metical… e também em dólar. Isso mesmo, está lá o valor de um bem essencial como a água em metical e embaixo o correspondente em dólar. Já fizeram até a conversão para mim, para ficar mais fácil quando eu não quiser usar a moeda do país!

Ou seja, a dolarização está sim em toda a parte e não é só a área da educação que deve tomar providências. E por que são tão importantes essas providências?

No especial sobre o tema do jornal O País, o economista Bruno Almeida explica que “a dolarização pode causar perda de parte da identidade, sendo que a moeda é o símbolo da soberania de uma nação, símbolo da identidade”. Usar outra moeda em lugar da nacional é desprezar a moeda criada no país. E vamos lembrar que esse é um país que está há poucos anos a construir sua identidade livre, pois foi colônia de Portugal até 1975.

Eu mantenho minha conta em metical no país, acho errado as pessoas usarem o dólar ou euro ou qualquer outra moeda que seja no dia a dia e entendo que isso interfere na auto-estima da população. Desprezar a moeda, para mim, é não respeitar sua própria economia. É não acreditar que seu povo é capaz.

E enquanto as contas estão vindo em dólares, os assalariados estão recebendo em meticais. Isso cria uma injustiça enorme àqueles que não são de fora, que não têm seus salários reajustados pelas moedas de seus países de origem, ou seja, para os moçambicanos natos.

E me deixa a pergunta: para que é que os estrangeiros têm vindo para cá? Para contribuir com a construção de uma nação livre, independente, desenvolvida e com bem-estar de sua população ou para explorar a condição desta nação africana e atuarem como novos colonizadores?

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] até hoje, várias instituições insistem na cobrança em outras moedas, como você já viu aqui no […]

  2. […] Nas escolas, agora só Metical No dia 8 de junho desse ano, escrevi nesse blog sobre minha indignação com o uso corrente do dólar americano em cobranças aqui em Moçambique, mesmo havendo no país uma moeda oficial, o Metical. Se não leu ainda e tem interesse, clique aqui. […]

  3. […] qual me refiro no título é o da praça. Especialmente, o da praça de câmbio. Como eu já contei aqui, dólar é moeda corrente em Moçambique. A moeda oficial do país é o metical, mas é possível […]

  4. 2 coisas me vieram à mente ao ler o teu post:
    1. Finalmente entendes porque as conversas de propina aqui não faziam sentido, não é? 😀
    2. E também agora entendes porque fico escandalizado por ver as agencias de viagens aqui no Brasil publicitarem preços em dolar! Algué precisa gritar na cara deles algo como “AQUI É O BRASIL! AQUI SE PAGA EM REAIS!!!” 😉

  5. Essa é a Sandra que eu conheço.


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