O moçambicano e a autoestima

Moçambique é um país maravilhoso. Tem belezas naturais inimagináveis, tem fauna e flora riquíssima, tem solo fértil e rico, tem um povo simpático, acolhedor, bem humorado, respeitador. Mas continua com um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do mundo. Tem alguns problemas e dificuldades tão entranhados no país, que o brilho de tudo isso que é bom acaba por se apagar.

Depois de conviver e conhecer mais a fundo esse povo e esse país tenho acreditado cada vez mais que o que falta aqui é autoestima. O moçambicano precisa acreditar mais em seu potencial e valorizar o que faz, o que tem, o que é. Vivendo em Maputo, no sul do país, estamos muito perto da fronteira com a África do Sul. Não sei se o mesmo se repete em outros pontos do país, mas aqui chega a ser enervante o quanto o moçambicano valoriza seu vizinho, sem aplicar a ele o mesmo senso crítico que aplica a si próprio.

Sim, a África do Sul é mais rica, tem mais desenvolvimento tecnológico e seu Índice de Desenvolvimento Humano é melhor. Mas a África do Sul está bem longe de ser o exemplo do tudo perfeito que os moçambicanos vêem. Estou hoje em Cidade do Cabo, a quarta cidade que conheço da África do Sul. As outras foram Nelspruit, Joanesburgo e Pretória, sem contar o Kruger Park, que é um mundo à parte.

Em todos esses lugares sofri com atendimento ineficiente, vi lixo na rua (bem menos que em Maputo, é verdade, mas vi), vi favelas, encontrei gente pedindo esmola, convivi com serviços mal feitos e gente sem educação, enfim, vivenciei problemas. Mas quando o moçambicano fala da África do Sul, fala do país perfeito, de cidades sem favelas, do lugar onde todos têm emprego e ganham bem (verdade que ganham mais que em Moçambique, mas gasta-se mais também), do lugar limpo onde o povo não faz xixi na rua.

Ou seja, os moçambicanos tendem a não ver os problemas que também existem (talvez em menor escala) no seu vizinho. E mais: não percebem que os problemas que não existem no vizinho dependem, em muito, da atitude do próprio povo. Quem faz xixi na rua em Maputo? Os postes? Não, o povo. Quem joga lixo a céu aberto? As árvores? Não, o povo. Talvez, falte ao moçambicano perceber que se ele cuidar do que está a volta dele, pode conseguir um ambiente melhor e ter o que tanto acha bonito no seu vizinho.

Isso me lembra muito a atitude de alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos. Vivem dizendo que “se fosse nos Estados Unidos não seria assim”, “lá as coisas funcionam”, “lá as pessoas são sérias”… Eu vivi lá e pude ver de perto e sentir na pele que não, não é nada disso…

Talvez se o moçambicano notar o seu valor, as suas cidades bonitas e a sua terra fértil, consiga fazer com que tudo isso seja igual ou melhor do que o que está no vizinho. Falta se perceber capaz, se valorizar e não se deixar abalar por uma fronteira. O mesmo moçambicano que passa o dia na África do Sul sem fazer xixi na rua, o faz quando chega em Maputo. Por quê? Porque “aqui é assim mesmo”. E se cada um resolver que não quer mais que seja?


Obs.: escrevendo este texto, lembrei de um outro, muito bom, escrito pelo Guilherme alguns meses atrás no Na ponta do lápis, chamado Miragem, e da Carta aberta a todo moçambicano e moçambicana, do ‘nando Aidos, publicada aqui no Mosanblog.

Das difíceis relações trabalhistas em Moçambique (4)

Tem sido muito difícil encontrar situações diferentes das que estava acostumada no Brasil e não generalizar, não pensar que todos em Moçambique fazem da mesma forma. Mas tento sempre lembrar que estou em Maputo, que representa apenas uma cidade, no sul do país. No entanto, quando ouvimos um mesmo tipo de história que se repete com várias pessoas, a tendência é achar que acontece mesmo em todo lugar.

Não sei se as relações trabalhistas fora de Maputo são diferentes do que se vê aqui. Vou tentar investigar e contar depois. Mas fico sabendo de cada caso… de arrepiar até o último fio de cabelo. Muitas vezes, tem a ver com o senso de propriedade que o patrão tem de seu empregado. Já falei aqui sobre a questão dos turnos. Ela mostra o quanto o empregador quer o empregado dependente e totalmente vinculado a ele, sem poder sequer estudar e se desenvolver.

Outra situação que tem a ver com essa exigência de comprometimento além da medida do razoável é a divisão dos problemas sem divisão de lucros. A não ser algumas empresas multinacionais, que oferecem alguma espécie de abono a seus funcionários no final do ano (quando o ano foi bom, claro), em geral, aqui não existe a discussão da divisão dos lucros. Afinal, o lucro é do dono e quanto mais melhor. Mas se a empresa tem prejuízo, aí é de todos.

Já ouvi algumas histórias que ilustram isso e vou relatar duas. Um sujeito abriu uma empresa na expectativa de ter muitos clientes logo no primeiro mês. Contratou dois ou três funcionários, que assinaram um contrato de trabalho para receber determinado valor no fim do mês. Os funcionários iam todos os dias. Eu mesma vi vários dias eles sentados à frente da empresa, à espera de trabalho. Mas os muitos clientes que o dono achou que teria não apareceram. Ao final de um mês, os funcionários não tinham trabalhado praticamente nada. No dia de pagar, o patrão informou que pagaria só a metade, porque eles não tinham trabalhado o tanto que se esperava.

Em nenhum momento durante o mês isso foi discutido ou essa possibilidade foi colocada aos empregados, para que eles pudessem se prevenir ou até escolher se ficariam ali ou não. A parte deles no negócio foi feita. Foram todos os dias e esperaram ter trabalho para executar. Tentaram argumentar isso e muito mais, mas o patrão foi irredutível. Para não ficar sem nem a metade do valor, aceitaram. Brigar na justiça poderia levar tempo e os filhos em casa têm fome.

Em outro caso, uma pessoa trabalhava na área administrativa de uma loja de móveis. Em determinada semana, houve pouco movimento na área dela. O dono da loja observou e avisou: no fim do mês, não vou pagar por essa semana, você quase não trabalhou. Mas ela esteve lá todos os dias, no horário, tendo ou não muito trabalho a fazer. Não importa, a lei de certos patrões aqui diz: trabalha menos, recebe menos. Ainda que não se trate de trabalho que dependa de comissões, ainda que haja um contrato dizendo o valor fixo do salário.

Eu tenho percebido que, na média, as empresas moçambicanas carecem muito de falta de planejamento. Eu nunca fui amiga dos planejamentos empresariais feitos em reuniões mirabolantes, que definem missões, visões, objetivos estratégicos e depois ficam guardados em uma gaveta esperando as próximas reuniões de planejamento estratégico. Mas acho que o mínimo de organização e previsão para o futuro da empresa deve existir. Exatamente porque a empresa lida com muitas vidas e atinge muitas famílias, deveria ter a seriedade e a responsabilidade de arcar com suas ações. Se uma pessoa abriu uma empresa e não tinha dinheiro sequer para pagar o primeiro mês de salário de dois funcionários, contava apenas com o que possivelmente entraria dos clientes, essa pessoa não deveria sequer ter aberto a empresa. Mas não é assim que temos visto funcionar…

E o pior é que quando conto, nas rodas com os amigos, os casos que conheço das difíceis relações trabalhistas por aqui, sempre tem alguém que conta uma nova história do gênero, que já viveu ou viu outro alguém vivendo situação parecida.

Casei com Moçambique

Brinca-se muito com a questão do casamento, de como a relação de amor, carinho e paixão costuma ser simplesmente destruída graças a um sim. Eu sou casada há muitos anos (com o ElefanteNews, aliás) e nunca entendi o que queriam dizer com isso. Mesmo depois de mais de uma década, nossa relação é de amizade, compreensão, amor, paixão e tudo de bom.

No entanto, nos últimos tempos tenho percebido melhor o que se quer dizer. Não graças ao meu casamento, mas por causa da minha relação com o lugar onde estou. Depois do casamento é que a gente conhece mesmo a outra pessoa. A convivência diária, a integração de culturas, a divisão de responsabilidades, tarefas e contas… Enfim, a aproximação que nos faz conhecer melhor a outra pessoa pode nos levar a ficar ainda mais encantados ou desencantar de vez.

Parece-me que casei com Moçambique. Até pouco tempo eu namorava Moçambique. Era uma relação onde eu só via a parte bacana, leve. Primeiro, porque morávamos na tal Zona Restrita, onde havia toda uma burocracia lusitana para se entrar e receber bens e serviços, mas, por outro lado, havia também a proteção (ou sensação de, ao menos) do exército, uma divisão com o cotidiano da cidade.

Agora não, agora vivemos em uma rua comum, com segurança comum, com limpeza comum. Poderia dizer nenhuma, mas não é para tanto também. Temos mais contato com outras pessoas que vivem na mesma região e contam histórias. E como o povo gosta de contar histórias, exagerar, fantasiar, maquiar… mas isso será assunto de outro post.

http://www.adorocinema.com/filmes/como-se-fosse-a-primeira-vez/

Embalagens jogadas no chão na rua de casa

Agora também trabalho por aqui. Antes era só um reconhecimento de terreno, trabalho voluntário aqui ou acolá, mas sem contato diário, regular. Hoje tenho equipe de trabalho, gente para treinar, cobrar, checar se fizeram o previsto, acompanhar. Tenho que prestar contas ao investidor. Vivo e convivo diariamente, 24 horas com outra cultura, outros valores, outra história, como em um casamento mesmo.

Eu não sou do tipo que gosta de generalizações, não acho que brasileiro isso ou aquilo, nem que moçambicano isso ou aquilo. Sei que ser humano é ser humano… Mas nessa convivência diária mais próxima, podendo conhecer mais os hábitos, as atitudes cotidianas, a forma como encaram o trabalho, o cumprimento de horários, as responsabilidades, parece que acabou o encanto. Acabou o espaço para respirar fora da relação.

Já não é divertido ver a diferença da visão do que é profissionalismo, porque agora é preciso lidar com isso e resolver os problemas que traz. Já não é cômico assistir aos improvisos, porque são em cima do meu trabalho. Está complicado encontrar paciência para explicar, explicar, explicar e no dia seguinte ter que explicar de novo as mesmas tarefas porque, como no filme Como se fosse a primeira vez, os interlocutores já não se lembram mais de ontem depois do sono.

É triste perceber a visão exploradora dos poucos que conseguiram conquistar alguma coisinha a mais depois da tão recente independência do país. Basta ter um pouco de recursos, ter tido uma pequena oportunidade de estudar e ser nadica mais esperto e pronto, a pessoa já se vê no direito de explorar os demais. Sem perceber que está cometendo com seus semelhantes o que Portugal fez com suas colônias.

Está difícil conviver com a importância que aqui se dá ao dinheiro, com gente que só pensa em ganhar mais o tempo todo, ainda que isso signifique não ter ética, não ter serviço de qualidade, não ser honesto, não praticar gestão de suas empresas pensando na sustentabilidade das mesmas.

Casos como os que já contei aqui, da empresa de energia ou do ar condicionado são exemplos cotidianos de uma realidade de desleixo e desprezo pelo cliente, pelo bem fazer, pela excelência.

Afinal, o que me pego pensando é que, se por aqui estamos engatinhando hoje no desenvolvimento, deveríamos olhar o caminho traçado por quem já percorreu longa distância e não cometer os mesmos erros, para assim chegar mais cedo ao desenvolvimento desejado e sustentável. Mas não é isso que vejo acontecer.

É quase desanimador. Mas tem horas que esse mesmo desânimo é que nos dá forças, por mais incongruente que isso seja. Aí me agarro no outro casamento da vida e sigo a trilha do elefante.

Passeio pelos mercados de Maputo

Eu não gosto de ir ao mercado. Aliás, não gosto de compras em geral. Mas as gôndolas dos mercados, em especial, me dão preguiça, sejam eles pequenos, super ou hiper. No entanto, quando chego a um lugar novo ou se tenho oportunidade em viagens, sempre gosto de passear no mercado. Por uma razão muito simples: é uma boa forma de conhecermos hábitos locais.

Nunca esqueço a minha surpresa quando entrei no Big Box (nome de uma rede do Centro-Oeste do Brasil) perto de casa, em Brasília, e vi manteiga de garrafa para vender. Para mim era algo inédito, mas fazia todo sentido, devido à grande influência da migração nordestina na capital do país.

Também foi muito divertido ver Coca-Cola escrito em árabe em Marrocos. Sem contar as diversas descobertas do mundo “fat and fast” (gordo e rápido) estadunidense, nos dois anos que morei em Washington.

produtos brasileiros encontrados nos mercados de MaputoAqui em Moçambique, já comentei quando falei dos sabonetes, não há muitas indústrias e no comércio do dia-a-dia encontramos bastante produtos importados. Produtos brasileiros estão em toda a parte. Há alguns mercados, como o Mahomed e C. A. onde a quantidade de produtos brasileiros salta à vista. Lá costumo comprar preparado para pão de queijo, por exemplo. No Hiper Maputo também há bastante coisa do Brasil, como o macarrão Renata (inclusive integral) e bolacha recheada Bono.

recibo do Horizon em chinêsMas tem para todo gosto. Se não está com vontade de matar saudade de nada do Brasil, mas sim de conhecer algo novo, vá ao Horizon, o mercado da comunidade chinesa. Ele fica na esquina da avenida Vladimir Lenine com a Zedequias Manganhela. É comum encontrarmos lá produtos que só têm a descrição em chinês. A embalagem exata como é vendida lá, sem qualquer etiqueta indicando do que se trata em outro idioma. Então, sempre é possível contar com a boa vontade de algum cliente oriental que esteja por perto para contribuir no entendimento. Lá é interessante também porque ao subir as escadas há produtos para a casa, que vão desde vassoura até mesa de computador. Inclusive, a que serve de apoio para escrever esse texto vem de lá. O divertido é depois pegar a nota e tentar lembrar o que custou quanto. Como quase tudo está escrito em ideogramas, só entendemos os números e umas poucas palavras que aparecem escritas em letras ocidentais no meio de tudo.

Em geral, são três categorias desse tipo de comércio aqui: grandes mercados, mercadinhos e delicatessen (mercadinhos onde se pode encontrar produtos mais refinados, além de frios especiais fatiados na hora). Entre os mercadinhos há os maiores e os menores, mas é tudo mercadinho. E como a importação é um fator de peso na comercialização dos produtos, há muita oscilação na oferta de cada estabelecimento. Você compra algo hoje, volta daqui a uma semana não tem mais. E pode não ter mais por muito tempo. Além disso, imagino que cada comerciante tenha suas negociações travadas com determinados fornecedores, então, não há uma homogeneidade no que os mercados oferecem. Cada um tem uma marca, um tipo de produto diferente dos demais. São poucos os produtos que se repetem em vários mercados.

Como pode ser útil para alguém saber quais são os mercados e onde estão, vou descrevê-los abaixo. Claro que não vou falar de todos, especialmente dos mercadinhos, que estão por toda parte. Vou tratar dos maiores na cidade e dos pequenos da região onde moro.

Já falei lá em cima do Mahomed, que tem grande variedade de produtos brasileiros. Fica no primeiro andar do Polana Shopping, na esquina das avenidas 24 de julho e Julius Nyerere. Também tem loja na avenida Filipe Samuel Magaia, 308, e na esquina da avenida Armando Tivane com a rua De Kassuende. Às sextas-feiras, mesmo a loja do shopping fecha no horário do almoço, porque os donos vão à mesquita. É da categoria mercadinhos. Também no Polana Shopping tem o Deli-Cious, que fica no térreo (rés do chão) e é da categoria delicatessen. Lá se encontra, por exemplo, o famoso presunto espanhol Pata Negra.

Ainda na categoria delicatessen, descobrimos recentemente, por indicação de um amigo, o Deli 968, que fica na avenida Julius Nyerere, 968/978. É bem interessante, porque tem massas frescas e carnes até com cortes brasileiros, como a picanha.

Para compras pequenas do dia a dia, usamos muito o Mastrong, que fica na Avenida Sansão Muthemba, 347, e vende o pão de forma da marca que gostamos, além de ter bom preço na manteiga e nos ovos, por exemplo.

Na mesma categoria mercadinho, tem o Sarah, que já é quase um supermercado e tem boa oferta de produtos. Fica na avenida 24 de julho, 1.550, em um centro comercial chamado Interfranca. Do mesmo porte tem o LM, também na avenida 24 de julho, no número 842. Lá tem boa oferta de produtos de plástico (potes, bacias, baldes, etc.) e sacos de lixo, produto não muito fácil de encontrar aqui, em especial se você procura de diferentes tamanhos.

Entre os grandes mercados há o Shoprite, o Game, o Hiper Maputo e o Mica Premier. O Shoprite é mercado mesmo, chamaríamos no Brasil de supermercado. Quando se faz uma grande compra, o valor global lá é mais em conta do que nos outros. Claro que há alguns produtos que são mais caros, mas no geral, é o melhor custo. Gosto lá especialmente da qualidade das coisas in natura, como frutas, verduras e legumes. Os preços de bebidas, como refrigerantes e cerveja, costumam ser os melhores. O Shoprite fica no parque da Paz, na avenida Acordos De Lusaka. Tem também loja na Matola, na avenida Abel Batista, 125, loja 30. O Shoprite ainda está presente em Moçambique na Beira, em Chimoio e em Nampula, além de mais onze países de África.

marca do Hiper MaputoO Hiper Maputo também é supermercado. Tem mais marcas conhecidas dos brasileiros e lá os preços em produtos de limpeza, em geral, são mais baratos. Não vende bebidas alcoólicas. Ele fica no Maputo Shopping, nas esquinas das ruas Marquês de Pombal e de Imprensa.

Na avenida Acordos de Lusaka, 242, fica o Mica Premier, que é da categoria grande mercado, mas grande mesmo. É divertido lá, porque vende desde cotonete até cadeira de rodas. Tem uma parte grande de ferragens e construção e um andar só com brinquedos. Não tem os melhores preços em produtos de abastecimento de casa, mas é bom conhecer para saber a grande gama que pode ser encontrada lá.

fachada GameNa mesma linha, tem o Game, que fica na avenida da Marginal, 151. É uma mistura de Extra com Leroy Merlin. Não tem muita variedade para o abastecimento da casa, nem os melhores preços. Mas tem guarda-sol, por exemplo. E portas e mesas e ferragens e televisores e máquinas fotográficas… aliás, os preços de eletroeletrônicos lá costumam ser competitivos. Tem também boa variedade de vinhos.

É isso. Fizemos um passeio pelos mercados da cidade. :D

Em geral, as delicatessen e os mercadinhos funcionam de segunda-feira a sábado, das 8h às 18h, e fecham no horário de almoço entre 12h e 14h ou 12h30 e 14h30. Os grandes mercados funcionam até um pouco mais tarde, como 20h, abrindo inclusive aos domingos e feriados.

Será que paguei propina?*

Quando se entra em Moçambique, no aeroporto, há grandes cartazes que pedem aos usuários do serviço público que não paguem nada além das taxas oficiais. Já vi a mesma campanha em outros espaços e até anúncios na TV. As propagandas também lembram aos funcionários públicos que receber dinheiro dos cidadãos é contra a lei.

Mesmo assim, com todo mundo que conversamos, sempre há uma história de corrupção a ser contada. Às vezes nem é declarado ou tratado como tal. Acho que foi o que aconteceu comigo, que ainda não tinha nenhuma história dessas para contar…

Fiz uma compra na internet de um produto que não há em Moçambique. O produto foi enviado diretamente da loja, em São Paulo, para mim. Chegou à minha casa o aviso de que havia encomenda a retirar no correio central. Nem era um pacote grande, mas aqui o carteiro só entrega envelopes.

Fui ao correio, lá estava o pacote e um formulário para eu retirar indicando a taxa de MT 130,00 por terem armazenado o pacote da sexta-feira, quando fui avisada da chegada da encomenda, até a segunda-feira, quando fui retirar. Até aí, tudo bem.

Eu já ia colocando a mão no pacote, depois de ter pago os MT 130,00, quando o funcionário do correio me informou que tínhamos que ir até a alfândega, para fazer cálculo das taxas. Dirigimo-nos à porta ao lado. Lá o funcionário da alfândega pegou o pacote, pegou a nota fiscal que o acompanhava, somou o valor do produto com o valor do frete cobrado pela empresa brasileira – anotando tudo à mão, num canto de um papel qualquer que estava em cima do balcão – e multiplicou por 22. Imagino que essa operação fosse para chegar ao valor que eu gastei em meticais, uma vez que o valor do real é quase isso. Olhou o resultado, calculou 7,5%. Olhou mais uma vez o resultado e, com cara de quem não estava satisfeito, calculou 3,5% e somou ao resultado anterior. Olhou o resultado, parece que agora gostou e anotou no mesmo papel, já todo rabiscado com outras tantas coisas (entre elas possíveis contas de mulungos — estrangeiros, brancos — como eu): MT 841,00.

— A senhora tem que pagar MT 841,00 de alfândega para retirar a mercadoria. Pode dar só MT 800,00, para arredondar.

Fiquei confusa, mas por um momento achei que podia ser. Foi nesse momento que paguei.

Claro que ele se esgueirou para um canto para receber. Depois, já no carro, percebi que, da forma como ele fez, ninguém tinha visto eu pagar. Mas isso só me veio à cabeça quando estava voltando para casa e, repensando o que se passara, me dei conta de que não recebi nenhum recibo da “taxa de alfândega”. Enfim, juntando todas as cenas daquela manhã na minha cabeça lerda, acho que só os MT 130,00 foram de fato para o governo. Os MT 800,00 foram uma propina velada, não pedida, não extorquida, não negociada.

Lição aprendida. Vou receber outras coisas pelo mesmo correio. Vou pedir recibo que explique as contas e discrimine o pagamento. Vou pagar a falar bem alto: “Aqui estão os MT 800,00 da taxa de alfândega”. Se ainda assim ele receber. Se eu levar comigo um recibo oficial das alfândegas discriminando o pagamento, tudo bem.

* No português brasileiro, propina significa dinheiro que se oferece a alguém em troca de favor ou benefício quase sempre ilícito, é aquela gorjeta forçada.

Meu preferido

No momento, meu restaurante preferido aqui em Maputo é o Boa Maré. Nada de luxo, requinte ou sofisticação. Apenas boa comida, higiene e bom atendimento. O que mais um restaurante precisa, afinal?

Como lá é servido de tudo, desde o café da manhã (mata-bicho, por aqui) até a cerveja com petiscos no fim do dia, passando pelas refeições mais robustas, como almoço e jantar, o ponto já virou quase uma extensão do meu escritório. Várias reuniões têm se dado ali, acompanhadas de café com bolo de cenoura, por exemplo.

Os pratos são caseiríssimos e as mãos dos donos — sempre na casa — se mostram presentes. Além do cardápio, onde se pode escolher uma imensa variedade de sanduíches e pratos, no almoço, há os pratos do dia. A cada dia da semana, dois pratos estão à disposição e são (bem) servidos rapidamente.

No momento, as escolhas são:
2ª feira: Carne assada com purê ou Massa à lavrador
3ª feira: Arroz de feijão com panados de porco (meu eleito) ou Garoupa com batata e legumes cozidos
4ª feira: Frango assado no forno ou Jardineira
5ª feira: Salada russa com filetes de garoupa ou Perna de porco assada no forno
6ª feira: Feijoada (não se iludam, feijoada aqui não é como a brasileira) ou Arroz de polvo
sábado: Rojões com batata, arroz e salada ou bacalhau à Brás

fachada Boa Maré Todo dia também tem uma sopa e muitas opções doces caseiros, como musses, bolo de bolacha, bolo de ananás (abacaxi), cremes, entre outros, além de salada de frutas, para agradar a Dra. Andreia.

Serviço:
O quê? Restaurante e Café Boa Maré.

Quando? De segunda-feira a sábado, das 8h30 às 23h (costuma ficar até mais tarde, porque atendem enquanto houver cliente).

Quanto? Café da manhã/Matabicho/Pequeno almoço sai por MT 190,00 (R$ 8,75); saladas por MT 180,00 (R$ 8,25); omeletes, em média, MT 180,00 também; Prego no prato (bife, ovo, batata frita e salada), MT 220,00 (R$ 10,10). Há 4 pratos com bacalhau, que custam entre MT 350,00 (R$ 16,10) e MT 650,00 (R$ 29,90). Entre os aperitivos, um muito popular por aqui é o camarão ao alhinho, por MT 200,00 (R$ 9,20). Sobremesas: MT 120,00 (R$ 5,50).

Onde? Av. 24 de julho, 1.395, Maputo.

Que chegue logo o futuro!

Notícia do jornal O País de 30 de setembro afirma: “No futuro, as cidades de Maputo e Matola – maiores consumidores – passarão a ter água 24/24″. De acordo com o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG), há 18 cidades em Moçambique que já se beneficiam de água potável sem retrição durante o dia. Como mostrei no texto Sem água, de menos de um mês atrás, a capital de Moçambique, Maputo, ainda não é uma dessas felizardas.

Mas, vejo agora no jornal que no futuro será. Esperemos pelo futuro, seja quando ele acontecer. Por enquanto, atentos a outra notícia do mesmo jornal, desde ontem estamos com os baldes, garrafas e tudo que pudemos cheios de água, porque a informação é de que a mesma FIPAG está paralisando por dois dias (1 e 2 de outubro) o fornecimento de água em Maputo e Matola.

A paralisação é por trabalhos de reabilitação e expansão do sistema de abastecimento dos dois municípios, assim como no distrito de Boane. De acordo com o jornal, cerca de 830 mil pessoas serão atingidas pela paralisação.

Aqui se faz o Mosanblog

Alguns amigos têm cobrado imagens de nossa vida em Moçambique. Como é a casa, como são os amigos, como é o bairro onde moramos…

Nas últimas semanas, tentei criar um espaço aqui no Mosanblog para deixar um painel de fotos, com essas imagens. Mas agora descobri que o modelo que escolhi para o blog não permite abrir uma página interna, além da inicial, onde estão os posts. Como gosto do modelo e não quero mudar por agora, vou colocar essas imagens aqui mesmo, entre um post e outro. Talvez até fique mais interessante.

Para começar, abaixo, uma foto do escritório de casa, onde é feito o Mosanblog. Como inspirações, o mapa da África, acima do monitor, e uma foto do Otto, na tela do computador. Aliás, 90% das vezes, o Otto está sentado no meu colo enquanto escrevo. Grande companheiro!

mesa do Mosanblog no escritório

Sem água

Hoje a água voltou para os canos aqui de casa em sua abundância habitual. Não que a abundância habitual seja lá grande coisa, mas é melhor do que o que tivemos nas últimas 36 horas.

Sexta-feira à noite, chegamos em casa e não havia água no chuveiro. Havia um fio muito fino na pia do banheiro (normalmente é um fio menos fino), havia normal no vaso sanitário e pouca na pia da cozinha. No filtro da cozinha, que é ligado diretamente no encanamento, um filete que demorou mais de meia hora para encher algumas garrafas que guardamos na geladeira.

Como não chega água da rua 24 horas por dia, creditamos a isso. Aqui em Maputo, a capital do país, a água é distribuída para as casas das 4h30 ao meio-dia. Depois disso, conta-se com o que fica armazenado na caixa d’água. Em muitas cidades próximas nem isso tem. É preciso comprar água de caminhão-pipa.

chuveiro de casa jorrando águaEntão, diante desse mecanismo de entrega de água, pensamos que talvez tivesse acabado a da caixa ou estivesse em um nível baixo, não conseguindo atender a todos os canos. Ontem, sábado, havia um pouco, bem pouco, no chuveirinho (que não é o mesmo cano do chuveiro) e o restante continuava igual. O pouco do chuveirinho nos permitiu tomar banho de gato.

Hoje, o chuveirinho começou a “engasgar” quando eu o estava usando. Medo. Ainda bem que tínhamos feito um pequeno estoque de água com o pouco que vinha dos canos ontem, pensando justamente na falta até dessa. Mas, depois de “engasgar”, passou a jorrar água forte, normal. Liguei o chuveiro e lá estava ela: forte e quentinha. O banho foi uma delícia!

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