Em visita

Outro dia recebi um e-mail interessante de uma outra blogueira que conheci em Maputo, a Renata. Ela estava para sair de férias e convidava as pessoas que ela conhece aqui a não deixar o blog dela, o Nhatinha.com, parado. Ou seja, queria que os amigos fizessem Guest Posts (textos convidados).

Assim como outros, topei a parada e enviei para ela um texto falando justamente sobre blogs de Moçambique. Minha visita foi publicada ontem e agora convido os leitores do Mosanblog a visitarem o texto clicando aqui.

Casei com Moçambique

Brinca-se muito com a questão do casamento, de como a relação de amor, carinho e paixão costuma ser simplesmente destruída graças a um sim. Eu sou casada há muitos anos (com o ElefanteNews, aliás) e nunca entendi o que queriam dizer com isso. Mesmo depois de mais de uma década, nossa relação é de amizade, compreensão, amor, paixão e tudo de bom.

No entanto, nos últimos tempos tenho percebido melhor o que se quer dizer. Não graças ao meu casamento, mas por causa da minha relação com o lugar onde estou. Depois do casamento é que a gente conhece mesmo a outra pessoa. A convivência diária, a integração de culturas, a divisão de responsabilidades, tarefas e contas… Enfim, a aproximação que nos faz conhecer melhor a outra pessoa pode nos levar a ficar ainda mais encantados ou desencantar de vez.

Parece-me que casei com Moçambique. Até pouco tempo eu namorava Moçambique. Era uma relação onde eu só via a parte bacana, leve. Primeiro, porque morávamos na tal Zona Restrita, onde havia toda uma burocracia lusitana para se entrar e receber bens e serviços, mas, por outro lado, havia também a proteção (ou sensação de, ao menos) do exército, uma divisão com o cotidiano da cidade.

Agora não, agora vivemos em uma rua comum, com segurança comum, com limpeza comum. Poderia dizer nenhuma, mas não é para tanto também. Temos mais contato com outras pessoas que vivem na mesma região e contam histórias. E como o povo gosta de contar histórias, exagerar, fantasiar, maquiar… mas isso será assunto de outro post.

http://www.adorocinema.com/filmes/como-se-fosse-a-primeira-vez/

Embalagens jogadas no chão na rua de casa

Agora também trabalho por aqui. Antes era só um reconhecimento de terreno, trabalho voluntário aqui ou acolá, mas sem contato diário, regular. Hoje tenho equipe de trabalho, gente para treinar, cobrar, checar se fizeram o previsto, acompanhar. Tenho que prestar contas ao investidor. Vivo e convivo diariamente, 24 horas com outra cultura, outros valores, outra história, como em um casamento mesmo.

Eu não sou do tipo que gosta de generalizações, não acho que brasileiro isso ou aquilo, nem que moçambicano isso ou aquilo. Sei que ser humano é ser humano… Mas nessa convivência diária mais próxima, podendo conhecer mais os hábitos, as atitudes cotidianas, a forma como encaram o trabalho, o cumprimento de horários, as responsabilidades, parece que acabou o encanto. Acabou o espaço para respirar fora da relação.

Já não é divertido ver a diferença da visão do que é profissionalismo, porque agora é preciso lidar com isso e resolver os problemas que traz. Já não é cômico assistir aos improvisos, porque são em cima do meu trabalho. Está complicado encontrar paciência para explicar, explicar, explicar e no dia seguinte ter que explicar de novo as mesmas tarefas porque, como no filme Como se fosse a primeira vez, os interlocutores já não se lembram mais de ontem depois do sono.

É triste perceber a visão exploradora dos poucos que conseguiram conquistar alguma coisinha a mais depois da tão recente independência do país. Basta ter um pouco de recursos, ter tido uma pequena oportunidade de estudar e ser nadica mais esperto e pronto, a pessoa já se vê no direito de explorar os demais. Sem perceber que está cometendo com seus semelhantes o que Portugal fez com suas colônias.

Está difícil conviver com a importância que aqui se dá ao dinheiro, com gente que só pensa em ganhar mais o tempo todo, ainda que isso signifique não ter ética, não ter serviço de qualidade, não ser honesto, não praticar gestão de suas empresas pensando na sustentabilidade das mesmas.

Casos como os que já contei aqui, da empresa de energia ou do ar condicionado são exemplos cotidianos de uma realidade de desleixo e desprezo pelo cliente, pelo bem fazer, pela excelência.

Afinal, o que me pego pensando é que, se por aqui estamos engatinhando hoje no desenvolvimento, deveríamos olhar o caminho traçado por quem já percorreu longa distância e não cometer os mesmos erros, para assim chegar mais cedo ao desenvolvimento desejado e sustentável. Mas não é isso que vejo acontecer.

É quase desanimador. Mas tem horas que esse mesmo desânimo é que nos dá forças, por mais incongruente que isso seja. Aí me agarro no outro casamento da vida e sigo a trilha do elefante.

De como os mulungos sofrem (2)

Já expliquei anteriormente que mulungo, em idioma changana (um dos mais de 20 falados em Moçambique além do oficial Português), significa pessoa de origem estrangeira, branco. Explico novamente porque a nossa comunidade de leitores do Mosanblog está sempre a crescer e é como rádio: tem “audiência” rotativa. :D

Alguns dias atrás também já falei de como os mulungos sofrem. Daí o 2 logo após o título de hoje. Na verdade, quando fiz o texto anterior já sabia que não ia parar por lá e, infelizmente, tenho certeza que esse número ainda crescerá, porque vida de mulungo é difícil.

Outro dia fui jantar em uma região pouco movimentada à noite. Estava acompanhada e quando chegamos na rua achamos estranho, porque é uma zona que freqüentamos mais de dia e, à noite, era só breu. Apenas algumas das luzes da rua estavam acesas.

Enfim, éramos uma turma, o restaurante é agradável, lá fomos. Ao final, saímos em três. Viemos dois em um carro e um em outro. Na saída do estacionamento, o amigo que estava sozinho foi à esquerda, nós à direita.

No entanto, depois de andarmos cem metros, olho para o carro dele e o vejo parando, com duas pessoas a aproximarem-se. Nenhuma iluminação, nada que identificasse o que poderiam ser aquelas pessoas. Na verdade, quepes na cabeça identificavam, mas àquela distância e naquela escuridão eu não notei. Estava de óculos, mas não era possível ver.

Alertei ao motorista do carro em que eu estava e ele virou o carro para passarmos perto do amigo e ver se havia algo errado. Quando chegávamos perto percebemos que eram dois policiais de trânsito. Como fazia frio, estavam com pulôveres escuros e não era possível perceber o uniforme. Iluminação, indicação, cones? Nada. Dois seres humanos com fuzis (coisa que aqui todo segurança que toma conta da porta das residências carrega), roupas escuras e sem sinalização nenhuma do que faziam. De perto, vimos o quepe, mas de longe, não tinha como…

Abrimos o vidro e o motorista do meu carro explicou que tínhamos voltado porque não entendemos o que estava acontecendo e ficamos preocupados com a possibilidade de nosso amigo estar a ser assaltado. O guarda mandou que encostássemos nosso carro ao lado do carro do nosso amigo e pediu os documentos. Foram todos entregues.

Então, começa o bate-boca. Eu já tinha visto isso em uma outra situação, onde o guarda dizia que o motorista do carro que eu estava tinha andado irregularmente na faixa, passando da esquerda para a direita em um lugar que não podia. Então o motorista explicou que fez isso porque o carro do lado, bêbado que devia estar, tinha vindo para cima do nosso e, na tentativa de evitar um acidente, ele de fato saíra da faixa, mas com segurança, certificando-se de que não havia outro carro perto. Faz meses que ocorreu, mas lembro claramente da discussão e da argumentação do amigo, que dizia que o guarda deveria ter parado o carro que quase causou o acidente também, não só o nosso. Mas o nosso era carro de mulungo…

Bem, voltando à noite mais recente: o guarda que argumentava com a gente começou, então, o mesmíssimo discurso do outro dia. Fiquei impressionada porque percebi que qualquer que seja a razão de te pararem, o discurso é o mesmo, já pronto e decorado: “o senhor não pode fazer o que quer aqui, tem que conhecer as leis de nosso país. No seu país não sei como é, mas aqui é preciso fazer como está no código. Tens que conhecer o código”. Então, o motorista argumenta que não fez nada errado ou que, se fez, foi em virtude de uma causa externa, como no caso do amigo que “pulou” de faixa para evitar um acidente. Aí vem a segunda parte do discurso: “Vais querer agora me ensinar a trabalhar? Me dizer como devo fazer aqui? Não podes vir ao meu país dizer como tenho que fazer.”

Em um primeiro momento, você se sente culpado, fica pensando o que disse para parecer que estavas a ditar regras. Mas como já não era minha primeira cena dessas e como vários mulungos já nos contaram a mesma história, passamos a ver de outra forma. Então, o motorista do meu carro sugeriu que o guarda passasse a multa: “não quero dizer como tens que trabalhar, mas se fiz algo errado, devo ser multado, ou levado para a esquadra (delegacia). O que vai ser, então? Não posso é ficar parado aqui na rua, sem ir nem vir, argumentando com o senhor e o senhor comigo até amanhecer.”

Isso acaba com o esquema. Que coisa mais sem graça. Mulungo tá ficando esperto. Em vez de pedir a multa, o que o guarda espera é que você ofereça um “refresco” (como carinhosamente chamam o suborno por aqui). O refresco sai mais em conta para o motorista e todo mundo sai a ganhar. Mas eu vou sempre preferir a multa. Depois do que passei no correio outro dia, estou bem esperta e vou sempre pagar com prazer tudo que me venha com recibo. Nem que seja multa saída da cabeça do guarda.

Observação: contei a história sob o prisma de mulungo, porque pelo que me contam, somos mais visados, até pela facilidade de enganar alguém que pode não dominar o conhecimento das leis e, em muitos casos, sequer o idioma, mas sei que o próprio moçambicano sofre com a questão da corrupção aqui. O governo tem feito campanhas pedindo que as pessoas não ofereçam, não cedam, não busquem o caminho mais fácil. Espero, sinceramente, que essas campanhas toquem os corações das pessoas. Afinal, só existe corrupção, onde existe corruptor.

Quanto melhor, mais simples

O passar dos anos está me fazendo chegar a uma conclusão sobre os seres humanos: quanto melhor a pessoa é no que faz, mais simples e acessível ao público será. Poderia dar aqui inúmeros exemplos de gente que nem olha para os lados, não cumprimenta pessoas hierarquicamente inferiores no trabalho e bota banca de ser um super profissional, quando na verdade não passa de um medíocre. Por outro lado, poderia dar também exemplos de gente excepcional no que faz, reconhecida onde passa pela competência e que se em algum momento não se aproxima do povo é porque algum segurança que quer ser mais importante que a personalidade em questão atrapalha.

Infelizmente, os melhores são minoria. Então, temos pouco contato com esses seres. Mas, quando temos a oportunidade, é sempre um deleite. Essa semana aconteceu isso aqui em Moçambique. O presidente do Brasil, Lula da Silva, esteve em visita ao país, como foi possível acompanhar em noticiários daqui, do Brasil e de tantos outros países. Se você tinha ido para um passeio em Marte e não viu, acesse o ElefanteNews para saber como foi.

É tido e sabido que o Lula é um desses casos de gente excepcional no que faz, reconhecido pela competência onde passa. Lembram do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se referindo a ele? O cara… Enfim, mas não é desse cara que vou tratar aqui e sim de um moçambicano muito conhecido no Brasil: Mia Couto. Quem não leu ainda algum livro desse ícone da literatura contemporânea, não pode perder. Mesmo que não goste de ler, tente. Eu garanto que vai ser uma experiência diferente.

Vieram vários jornalistas brasileiros acompanhar a visita de Lula a Moçambique. Lula partiu no começo da tarde de quarta-feira e esses jornalistas fizeram contato com Mia Couto, pedindo uma conversa informal com ele. Amiga de uma das jornalistas presentes, fui convidada para participar. E, claro, não ia perder a oportunidade de estar ao lado de Mia Couto.

Observo que a conversa informal foi 65% tietagem e 35% conversa. Mas “o cara” da literatura merece. Foi muito legal ver a disposição dele em se deslocar até o hotel onde estavam os jornalistas e ficar lá a trocar figurinhas até cansar. Não era entrevista, não era para divulgar seus livros, não havia interesse da parte dele. Foi só receptivo com quem o admira. No final, foto com cada um deles, autógrafos em livros, beijinhos e muitos obrigados. É isso aí, quando o cara é o cara, não precisa fingir que é melhor que ninguém. Ele simplesmente é.

Mia Couto com jornalistas brasileiros no lobby do hotel Polana

Mia Couto com jornalistas brasileiros no lobby do hotel Polana

Conheça mais do autor, vendo o que ele falou para a TV Brasil, em entrevista para o programa Nova África, em junho de 2009.

Leia também entrevista para a Agência Brasil, em setembro de 2010.

Saiba mais sobre a visita de Lula a Maputo, vendo as matérias que Eduardo Castro produziu para agência e TV Brasil:

- Lula chegou e já deu entrevista

- Lula e a Universidade Aberta

- Lula visita Maputo pela terceira vez. A TV Brasil acompanhou

- Lula, os empresários e os predadores

- Pela última vez como presidente, Lula se despede da África

- Lula, Guebuza, TV Brasil na África

Uma brasileira em Moçambique

Foi só por uma noite, mas de tão agradável que foi, merece agora toda uma quinta-feira de destaque. E uma Quinta Quente!

Ana Costa de pandeiro na mão no Teatro Avenida em MaputoO evento foi na sexta-feira passada, dia 29 de outubro de 2010, quando Ana Costa apresentou-se no Teatro Avenida (avenida 25 de setembro, 1.179), em Maputo, em um evento coordenado pela Embaixada do Brasil em Moçambique.

A seleção das músicas foi especial. Com muito Noel Rosa, porque o mote do evento era justamente a comemoração do centenário do nascimento do músico (11 de dezembro de 1910). Mas também canções que estão nos álbuns de Ana Costa, como Novos Alvos (título de um dos CDs) e Coisas Simples, que ela canta com Martinho da Vila.

Durante o espetáculo: pane nas luzes. O palco em breu e nem por isso a artista perdeu o rebolado. Seguiu a cantar Conversa de Botequim, de Noel Rosa. Na platéia, pessoas de coração aberto que moram no nosso querido Moçambique (sendo ou não moçambicanos), ligaram as luzes dos celulares e, balançando no ritmo da música, contribuíram para que o show seguisse, ainda que no escuro. No finzinho da música, volta a luz.

Ana Costa não reclamou, não fez cara feia, seguiu o show com sua animação, apenas comentou que aquela situação não estava prevista e agradeceu a resposta da platéia. Ponto para a simpatia e versatilidade da artista.

Aliás, versatilidade apresentada em vários outros momentos do show, quando mostrou que sabe mesmo desse negócio de música: além de cantar bonito, toca instrumentos de percussão e violão. Mas ela não estava sozinha não. Estava, aliás, muito bem acompanhada por Tuca Alves, no violão e cavaquinho; Júlio Florindo, contra-baixo; Bianca Calcagni e Silvão Silva, na percussão; Geórgia Câmara, na bateria; além do Vinicius Geria, responsável pela sonorização.Ana Costa canta no Teatro Avenida em Maputo

Mais adiante, Ana Costa comentou que no domingo estaria de volta ao Brasil e votaria no segundo turno da eleição presidencial. Disse que fica muito feliz em votar, especialmente, em poder votar em um país onde houve um tempo recente que não podíamos. Não disse em quem e isso não importa. Deu seu exemplo de cidadania. Ponto mais uma vez.

E assim foi conquistando meu coração e meus ouvidos… Valeu Ana Costa!

Abaixo, minha preferida entre tantas boas que ouvi e curti naquela noite.

Visite o site oficial da cantora.

E saiba mais sobre Ana Costa clicando aqui.

Votei hoje e votarei amanhã

entrada CCBM Nesse domingo, 31 de outubro, voltei ao Centro Cultural Brasil Moçambique, aqui em Maputo, para votar no segundo turno das eleições presidenciais. E nos próximos dias vou votar mais uma vez, agora pela internet, para o Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE).

O conselho é formado por 16 brasileiros radicados no exterior e tem como objetivos manter a interlocução entre os brasileiros que vivem fora do país e o governo brasileiro e assessorar o Ministério de Relações Exteriores na definição de políticas em favor das comunidades brasileiras no exterior. A representação é regional, sendo quatro representantes para cada uma das seguintes regiões geográficas: 1 – Américas do Sul e Central; 2 – América do Norte e Caribe; 3 – Europa; 4 – Ásia, Oriente Médio, África e Oceania. Logo, aqui em Maputo elegemos representantes da região 4. Cada eleitor vota em um candidato de sua região, não necessariamente seu país.

O conselho é uma demonstração de respeito aos cidadãos que, por inúmeras razões e, às vezes, obrigações, têm que se afastar de sua terra natal, mas não deixam de fazer parte dela. Com o conselho, mesmo enquanto moro em outro país, sinto-me incluída e com possibilidade de ter minhas opiniões consideradas. O CRBE foi lançado durante a II Conferência “Brasileiros no Mundo”, realizada em outubro de 2009, e instituído pelo decreto n° 7.214.

Os requisitos para se candidatar ao conselho foram: a. ter mais de 18 anos; b. viver no mínimo há três anos na região geográfica que pretende representar; c. não possuir antecedentes criminais; d. declarar estar em condições de exercer as funções de Conselheiro do CRBE. Os membros eleitos exercerão mandato de dois anos, com possibilidade de reeleição.

O acesso à página de votação para as eleições do CRBE estará disponível no portal Brasileiros no Mundo, a partir da zero hora (horário de Brasília) do dia 1º de novembro, até a meia-noite (horário de Brasília) do dia 9 de novembro de 2010.

Para votar, o brasileiro deve ter mais de 16 anos, residir no exterior e informar, obrigatoriamente, os seguintes dados no formulário eletrônico do sistema de votação: a) cidade e país, com campo facultativo para estado/província; b) nome completo; c) e-mail; e d) um número de documento oficial brasileilro (passaporte ou CPF ou título de eleitor no exterior ou matrícula consular registrada pelo Consulado da área em que reside, quando aplicável).

Moçambique tem três candidatos: Domingas Almeida de Moraes Faiane, Gabriel Limaverde e Rose Baiana (Rosemeire Cerqueira dos Santos).

Veja aqui a lista completa dos candidatos em todo o mundo.

Confira também o Regimento do Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior.

Passeio pelos mercados de Maputo

Eu não gosto de ir ao mercado. Aliás, não gosto de compras em geral. Mas as gôndolas dos mercados, em especial, me dão preguiça, sejam eles pequenos, super ou hiper. No entanto, quando chego a um lugar novo ou se tenho oportunidade em viagens, sempre gosto de passear no mercado. Por uma razão muito simples: é uma boa forma de conhecermos hábitos locais.

Nunca esqueço a minha surpresa quando entrei no Big Box (nome de uma rede do Centro-Oeste do Brasil) perto de casa, em Brasília, e vi manteiga de garrafa para vender. Para mim era algo inédito, mas fazia todo sentido, devido à grande influência da migração nordestina na capital do país.

Também foi muito divertido ver Coca-Cola escrito em árabe em Marrocos. Sem contar as diversas descobertas do mundo “fat and fast” (gordo e rápido) estadunidense, nos dois anos que morei em Washington.

produtos brasileiros encontrados nos mercados de MaputoAqui em Moçambique, já comentei quando falei dos sabonetes, não há muitas indústrias e no comércio do dia-a-dia encontramos bastante produtos importados. Produtos brasileiros estão em toda a parte. Há alguns mercados, como o Mahomed e C. A. onde a quantidade de produtos brasileiros salta à vista. Lá costumo comprar preparado para pão de queijo, por exemplo. No Hiper Maputo também há bastante coisa do Brasil, como o macarrão Renata (inclusive integral) e bolacha recheada Bono.

recibo do Horizon em chinêsMas tem para todo gosto. Se não está com vontade de matar saudade de nada do Brasil, mas sim de conhecer algo novo, vá ao Horizon, o mercado da comunidade chinesa. Ele fica na esquina da avenida Vladimir Lenine com a Zedequias Manganhela. É comum encontrarmos lá produtos que só têm a descrição em chinês. A embalagem exata como é vendida lá, sem qualquer etiqueta indicando do que se trata em outro idioma. Então, sempre é possível contar com a boa vontade de algum cliente oriental que esteja por perto para contribuir no entendimento. Lá é interessante também porque ao subir as escadas há produtos para a casa, que vão desde vassoura até mesa de computador. Inclusive, a que serve de apoio para escrever esse texto vem de lá. O divertido é depois pegar a nota e tentar lembrar o que custou quanto. Como quase tudo está escrito em ideogramas, só entendemos os números e umas poucas palavras que aparecem escritas em letras ocidentais no meio de tudo.

Em geral, são três categorias desse tipo de comércio aqui: grandes mercados, mercadinhos e delicatessen (mercadinhos onde se pode encontrar produtos mais refinados, além de frios especiais fatiados na hora). Entre os mercadinhos há os maiores e os menores, mas é tudo mercadinho. E como a importação é um fator de peso na comercialização dos produtos, há muita oscilação na oferta de cada estabelecimento. Você compra algo hoje, volta daqui a uma semana não tem mais. E pode não ter mais por muito tempo. Além disso, imagino que cada comerciante tenha suas negociações travadas com determinados fornecedores, então, não há uma homogeneidade no que os mercados oferecem. Cada um tem uma marca, um tipo de produto diferente dos demais. São poucos os produtos que se repetem em vários mercados.

Como pode ser útil para alguém saber quais são os mercados e onde estão, vou descrevê-los abaixo. Claro que não vou falar de todos, especialmente dos mercadinhos, que estão por toda parte. Vou tratar dos maiores na cidade e dos pequenos da região onde moro.

Já falei lá em cima do Mahomed, que tem grande variedade de produtos brasileiros. Fica no primeiro andar do Polana Shopping, na esquina das avenidas 24 de julho e Julius Nyerere. Também tem loja na avenida Filipe Samuel Magaia, 308, e na esquina da avenida Armando Tivane com a rua De Kassuende. Às sextas-feiras, mesmo a loja do shopping fecha no horário do almoço, porque os donos vão à mesquita. É da categoria mercadinhos. Também no Polana Shopping tem o Deli-Cious, que fica no térreo (rés do chão) e é da categoria delicatessen. Lá se encontra, por exemplo, o famoso presunto espanhol Pata Negra.

Ainda na categoria delicatessen, descobrimos recentemente, por indicação de um amigo, o Deli 968, que fica na avenida Julius Nyerere, 968/978. É bem interessante, porque tem massas frescas e carnes até com cortes brasileiros, como a picanha.

Para compras pequenas do dia a dia, usamos muito o Mastrong, que fica na Avenida Sansão Muthemba, 347, e vende o pão de forma da marca que gostamos, além de ter bom preço na manteiga e nos ovos, por exemplo.

Na mesma categoria mercadinho, tem o Sarah, que já é quase um supermercado e tem boa oferta de produtos. Fica na avenida 24 de julho, 1.550, em um centro comercial chamado Interfranca. Do mesmo porte tem o LM, também na avenida 24 de julho, no número 842. Lá tem boa oferta de produtos de plástico (potes, bacias, baldes, etc.) e sacos de lixo, produto não muito fácil de encontrar aqui, em especial se você procura de diferentes tamanhos.

Entre os grandes mercados há o Shoprite, o Game, o Hiper Maputo e o Mica Premier. O Shoprite é mercado mesmo, chamaríamos no Brasil de supermercado. Quando se faz uma grande compra, o valor global lá é mais em conta do que nos outros. Claro que há alguns produtos que são mais caros, mas no geral, é o melhor custo. Gosto lá especialmente da qualidade das coisas in natura, como frutas, verduras e legumes. Os preços de bebidas, como refrigerantes e cerveja, costumam ser os melhores. O Shoprite fica no parque da Paz, na avenida Acordos De Lusaka. Tem também loja na Matola, na avenida Abel Batista, 125, loja 30. O Shoprite ainda está presente em Moçambique na Beira, em Chimoio e em Nampula, além de mais onze países de África.

marca do Hiper MaputoO Hiper Maputo também é supermercado. Tem mais marcas conhecidas dos brasileiros e lá os preços em produtos de limpeza, em geral, são mais baratos. Não vende bebidas alcoólicas. Ele fica no Maputo Shopping, nas esquinas das ruas Marquês de Pombal e de Imprensa.

Na avenida Acordos de Lusaka, 242, fica o Mica Premier, que é da categoria grande mercado, mas grande mesmo. É divertido lá, porque vende desde cotonete até cadeira de rodas. Tem uma parte grande de ferragens e construção e um andar só com brinquedos. Não tem os melhores preços em produtos de abastecimento de casa, mas é bom conhecer para saber a grande gama que pode ser encontrada lá.

fachada GameNa mesma linha, tem o Game, que fica na avenida da Marginal, 151. É uma mistura de Extra com Leroy Merlin. Não tem muita variedade para o abastecimento da casa, nem os melhores preços. Mas tem guarda-sol, por exemplo. E portas e mesas e ferragens e televisores e máquinas fotográficas… aliás, os preços de eletroeletrônicos lá costumam ser competitivos. Tem também boa variedade de vinhos.

É isso. Fizemos um passeio pelos mercados da cidade. :D

Em geral, as delicatessen e os mercadinhos funcionam de segunda-feira a sábado, das 8h às 18h, e fecham no horário de almoço entre 12h e 14h ou 12h30 e 14h30. Os grandes mercados funcionam até um pouco mais tarde, como 20h, abrindo inclusive aos domingos e feriados.

Será que paguei propina?*

Quando se entra em Moçambique, no aeroporto, há grandes cartazes que pedem aos usuários do serviço público que não paguem nada além das taxas oficiais. Já vi a mesma campanha em outros espaços e até anúncios na TV. As propagandas também lembram aos funcionários públicos que receber dinheiro dos cidadãos é contra a lei.

Mesmo assim, com todo mundo que conversamos, sempre há uma história de corrupção a ser contada. Às vezes nem é declarado ou tratado como tal. Acho que foi o que aconteceu comigo, que ainda não tinha nenhuma história dessas para contar…

Fiz uma compra na internet de um produto que não há em Moçambique. O produto foi enviado diretamente da loja, em São Paulo, para mim. Chegou à minha casa o aviso de que havia encomenda a retirar no correio central. Nem era um pacote grande, mas aqui o carteiro só entrega envelopes.

Fui ao correio, lá estava o pacote e um formulário para eu retirar indicando a taxa de MT 130,00 por terem armazenado o pacote da sexta-feira, quando fui avisada da chegada da encomenda, até a segunda-feira, quando fui retirar. Até aí, tudo bem.

Eu já ia colocando a mão no pacote, depois de ter pago os MT 130,00, quando o funcionário do correio me informou que tínhamos que ir até a alfândega, para fazer cálculo das taxas. Dirigimo-nos à porta ao lado. Lá o funcionário da alfândega pegou o pacote, pegou a nota fiscal que o acompanhava, somou o valor do produto com o valor do frete cobrado pela empresa brasileira – anotando tudo à mão, num canto de um papel qualquer que estava em cima do balcão – e multiplicou por 22. Imagino que essa operação fosse para chegar ao valor que eu gastei em meticais, uma vez que o valor do real é quase isso. Olhou o resultado, calculou 7,5%. Olhou mais uma vez o resultado e, com cara de quem não estava satisfeito, calculou 3,5% e somou ao resultado anterior. Olhou o resultado, parece que agora gostou e anotou no mesmo papel, já todo rabiscado com outras tantas coisas (entre elas possíveis contas de mulungos — estrangeiros, brancos — como eu): MT 841,00.

— A senhora tem que pagar MT 841,00 de alfândega para retirar a mercadoria. Pode dar só MT 800,00, para arredondar.

Fiquei confusa, mas por um momento achei que podia ser. Foi nesse momento que paguei.

Claro que ele se esgueirou para um canto para receber. Depois, já no carro, percebi que, da forma como ele fez, ninguém tinha visto eu pagar. Mas isso só me veio à cabeça quando estava voltando para casa e, repensando o que se passara, me dei conta de que não recebi nenhum recibo da “taxa de alfândega”. Enfim, juntando todas as cenas daquela manhã na minha cabeça lerda, acho que só os MT 130,00 foram de fato para o governo. Os MT 800,00 foram uma propina velada, não pedida, não extorquida, não negociada.

Lição aprendida. Vou receber outras coisas pelo mesmo correio. Vou pedir recibo que explique as contas e discrimine o pagamento. Vou pagar a falar bem alto: “Aqui estão os MT 800,00 da taxa de alfândega”. Se ainda assim ele receber. Se eu levar comigo um recibo oficial das alfândegas discriminando o pagamento, tudo bem.

* No português brasileiro, propina significa dinheiro que se oferece a alguém em troca de favor ou benefício quase sempre ilícito, é aquela gorjeta forçada.

Missão cumprida

Hoje fui ao Centro Cultural Brasil Moçambique, onde fica a seção 501 da Zona 1, em Maputo. Aqui, 463 brasileiros estão inscritos para votar, como você vê na matéria que o Eduardo Castro fez para a agência Brasil e já publicou no ElefanteNews. Fui exercer meu direito e dever de votar. Agora, como dizem por aqui “já está”.

fachada do Centro Cultual Brasil Moçambique

No caminho, lembrei de um antigo apresentador da rádio Bandeirantes, Antônio Carvalho (1946 – 2008), que sempre repetia em seu programa: “somos todos crianças”. E, diante desse mundão do qual nada sabemos, somos mesmo. Então, às vezes, se faz necessário sermos tratados como tal.

Muita gente reclama da obrigatoriedade de votar, argumentando que se é democracia de verdade, deveria ser escolha de cada um. Pois bem, se não quer votar, não pode por motivos religiosos ou qualquer outra razão, vá até a urna e anule seu voto ou deixe em branco, ou, não vá, mas tenha o trabalho de justificar. É como quando o pai e a mãe, por mais democráticos e liberais que sejam, obrigam seus filhos a fazer algumas coisas que as crianças não querem. Coisas básicas como escovar os dentes ou não comer só salgadinhos, mas alguma comida saudável de vez em quando. Quem não passou por isso na condição de criança? Então, conforme-se, é para o seu próprio bem. Quando formos adultos, talvez possamos compreender.

Aqui se faz o Mosanblog

Alguns amigos têm cobrado imagens de nossa vida em Moçambique. Como é a casa, como são os amigos, como é o bairro onde moramos…

Nas últimas semanas, tentei criar um espaço aqui no Mosanblog para deixar um painel de fotos, com essas imagens. Mas agora descobri que o modelo que escolhi para o blog não permite abrir uma página interna, além da inicial, onde estão os posts. Como gosto do modelo e não quero mudar por agora, vou colocar essas imagens aqui mesmo, entre um post e outro. Talvez até fique mais interessante.

Para começar, abaixo, uma foto do escritório de casa, onde é feito o Mosanblog. Como inspirações, o mapa da África, acima do monitor, e uma foto do Otto, na tela do computador. Aliás, 90% das vezes, o Otto está sentado no meu colo enquanto escrevo. Grande companheiro!

mesa do Mosanblog no escritório

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 192 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: