Parabéns, Isaura!

Hoje, 20 de julho, foi um dia muito especial para Moçambique. Não é data marcada no calendário oficial, mas olha, bem que podia… Na página da dona Isaura Macedo Pinto no Facebook, eu deixei a mensagem: “Todas as homenagens serão poucas para a pessoa maravilhosa que você é. Parabéns, muita saúde, muita felicidade. Taí uma pessoa que merece!”

É aniversário da grande amiga Isaura, que fez parte de nossa vida enquanto moramos em Maputo e que muito nos honra com seu carinho e sua atenção por ser alguém que, de fato, representa a história de Moçambique. E, pensando em como mais eu poderia homenageá-la, resolvi escrever um post para fechar a data.

Isaura completou 56 anos. Inacreditáveis 56 anos. Com tanta energia e cara de menina, parece ter muito menos. Com tanta história e tanta importância política para seu país, poderia ter muito mais.

Isaura esteve presente em um momento crucial de Moçambique. Foi militante na luta pela independência e foi grande influência na formação do novo país que surgia em 1975. Foi assessora do ministério de Relações Exteriores, trabalhando diretamente com o primeiro ministro da pasta, Joaquim Chissano – que viria a ser presidente de 1986 a 2005 –, e sendo importante referência naqueles primeiros anos, do governo de Samora Machel.

Isaura era muito jovem, mas seu cérebro ágil, sua inteligência e sua energia, a colocaram em contato com autoridades de diversos países. Ela ajudou a construir o país e se manteve importante nas altas rodas da sociedade moçambicana. Mesmo assim, em nenhum momento perdeu a espontaneidade e a modéstia. Com a nova nação nos trilhos, fez carreira em um importante banco, para aposentar-se em 2013. Nos últimos anos também retomou os estudos, provando que sua energia continuava a mesma de menina e sua perseverança é infinita.

Também recentemente, se aventurou nas páginas de jornal. Passou a assinar uma coluna no semanário Magazine Independente, onde conta histórias de Moçambique e de pessoas que passam por lá. Imaginem que até eu fui agraciada por tal coluna. E receber uma homenagem de uma pessoa que merece todas as homenagens, é uma honra enorme para mim. Por isso, resolvi retomar o Mosanblog hoje, mesmo sem estar em Moçambique. Afinal, eu saí do país, mas o país não sai nunca mais de mim. Assim como não consigo me desvincular das pessoas maravilhosas que conheci por lá, como a grande Isaura.

Parabéns, Isaura!

Coluna da Isaura, no dia em que, com muita honra, fui entrevistada

Coluna da Isaura, para a qual fui entrevistada

Números de 2013

No ano de 2013, foram produzidos apenas dois textos novos no Mosanblog, uma vez que meus planos de voltar a Moçambique para realizar diversos projetos pontuais ainda não foram concretizados e o retorno ao continente africano foi adiado.

No entanto, o Mosanblog consolidou sua vocação de ser um blog para consultas a diversos assuntos relacionados à África e, mais especificamente, Moçambique. No relatório anual produzido pelo WordPress, consta que foram recebidas 78 mil visitas em 2013, vindas de 131 países, principalmente Brasil, Moçambique e Portugal.

mapa de visitas

Os termos mais procurados por pessoas que chegaram ao Mosanblog ao longo do ano foram referentes a mapa da África, mulungo, Mosanblog, 2M e mapa de Maputo.

Os textos mais visitados foram Mas o que é mulungo, afinal?, Índice dos presidentes africanos, Mulheres Africanas no Brasil, O pedido é mais importante que o casamento e Levar ou trazer.

Espero que em 2014 o Mosanblog continue contribuindo com pessoas que precisam fazer pesquisas ou querem entender mais sobre o maravilhoso continente africano.

Para ver o relatório completo, com gráficos e imagens, basta clicar aqui.

Mulheres Africanas no Brasil

Já falei aqui que voltar a Moçambique é muito bom; fácil como voltar para casa. Mas, desta vez, não fui a Moçambique, o país é que veio até mim e trouxe todo o continente com ele. Tive o prazer de ir à pré-estréia do filme Mulheres Africanas – a rede invisível, da Cinevideo Produções.

Foi uma sensação muito boa, ao ver as primeiras cenas, identificar Moçambique. Perceber que aquela mulher, aquela casa, aqueles gestos, aquele céu… só podiam estar em Moçambique. Era o que um dia já foi a minha casa e, no fundo, sempre será.

O filme (em cartaz de 8 de março a 8 de abril de 2013 no Circuito Itaú de Cinema em Brasília, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro) é um documentário que apresenta a trajetória de mulheres africanas.

São retratadas grandes líderes locais, reconhecidas mundialmente por sua atuação em diversas áreas, e também mulheres comuns, que, assim como as demais, fazem toda a diferença no rumo que tomam suas famílias, seus países, seu continente.

O documentário é guiado por entrevistas com Graça Machel – esposa de Nelson Mandela e ativista moçambicana -, Leymah Gbowee – recebeu o Nobel da Paz em 2012 por sua luta pela libertação da Libéria da tirania e conquista da democracia -, Sara Masasi – empresária mulçumana da Tanzânia de grande destaque no mundo de negócios por sua criatividade e ousadia na gestão -, Nadine Gordimer – sul-africana e prêmio Nobel de Literatura em 1991 – e Luisa Diogo – atual deputada de Moçambique e ex-primeira ministra do país.

Elas são apresentadas como a base norteadora da organização política, econômica, comunitária e cultural africana. E quem já viveu por lá sabe o quanto, de fato, as mulheres têm papel de protagonismo nas grandes decisões daquelas nações.

Mulheres Africanas é um documentário sem ousadias artísticas, com entrevistas estáticas e até um pouco formais, dentro de um roteiro quadradinho, que se desenvolve conforme passa pelos diversos países, como a própria Cinevideo já fez em trabalhos anteriores. Mas a falta de criatividade é compensada pela maravilha de vermos a África retratada no cinema, em importantes cidades brasileiras. Além disso, o filme foge totalmente do clichê de mostrar a África da fome, pobreza, desnutrição e Aids (Sida).

Para quem não tem a oportunidade de atravessar o Oceano Atlântico e ver de perto o cotidiano da mulher africana, é imperdível. Mesmo que o continente africano não esteja entre seus interesses prioritários, considere a possibilidade. Afinal, o documentário é, antes de tudo sobre mulheres, sobre valores e sobre sociedade.

Ficha Técnica:
Diretor: Carlos Nascimbeni
Produção: Mônica Monteiro
Roteiro: Carlos Nascimbeni
Gênero: Documentário
Duração: 80 minutos

Balanço 2012

Felizmente, minha relação com Moçambique não acaba nunca. Ainda que tenham sido poucos posts ao longo do ano, em 2012 tive a possibilidade de visitar Maputo mais uma vez e rever os amigos e a terra que tão bem me acolheu, além de fazer novas amizades, que trouxe no coração quando voltei para casa.

E, como sempre no fim do ano, a WordPress nos presenteia com a análise do movimento do blog no ano. Vamos ver?

Apesar do pouco conteúdo novo – apenas oito textos -, o Mosanblog foi visto cerca de 150 mil vezes, o que mostra que o conteúdo ainda tem servido como base de pesquisa para muitos internautas. O pico do movimento foi em 30 de outubro, com 878 visitas. Isso dá mais de 36 visitas por hora. Nada mal…

Os visitantes vieram de 149 países e, entre os comentadores mais ativos, aparecem na lista a Lucia Agapito e a lucia, mas eu garanto para vocês que são a mesma pessoa…

O texto mais visitado foi Navegação turbulenta do rio Zambeze, publicado em 29 de outubro de 2010.

Se quer saber mais, clique aqui e veja o relatório completo

Para finalizar, uma notícia: como a experiência de ter um blog me foi tão agradável, devo contar que não resisti e, no final de 2012, abri novo endereço: o Quem aguenta? A proposta é completamente diferente do Mosanblog, mas, como eu mesma já disse aqui em algum momento, eu também estou diferente…

Partir mais uma vez

Nascer do sol em África

Enfim, aqui estou eu pela segunda vez em um avião que deixa para trás Moçambique. Foi uma despedida singela, um dia normal, jantar em casa, com alguns amigos, mas não todos. Afinal, em breve vamos nos ver de novo.

O caminho já não parece tão distante. E dessa vez é mesmo menor, sendo que, sem o Otto, não preciso ir via Lisboa. E para pequenas temporadas o Otto pode sempre ficar em casa, tranqüilinho, feliz à minha espera.

A curta estadia também me faz suportar melhor as diferenças que me incomodam e diminui as probabilidades de cenas com as quais eu não sei conviver, como um guarda a pedir dinheiro porque tem fome ou o fato do governo ter aplicado esse ano um aumento significativo (e necessáario) no salário mínimo e algumas empresas onde eu perguntei ainda não estarem praticando. E provavelmente não vão praticar.

Mas a distância de alguns meses fora também ajudou a perceber melhor as mudanças positivas que se deram, como já contei no texto Mudanças acontecem. Devagar… Enfim, acho que encontrei uma fórmula boa para conviver e contribuir com Moçambique: nunca deixá-lo, mas não ficar imersa por muito tempo.

Neste vôo de volta, o que me acompanha é a sensação de que Moçambique não me pertence mais, mas que parte de mim sempre vai pertencer a Moçambique.

Para onde vão os europeus?

A crise econômica na Europa tem provocado alguns fenômenos interessantes na relação daqueles países com o mundo emergente e até o nem tanto. No Brasil, vimos a reação dos espanhóis quando nós anunciamos a aplicação da regra de reciprocidade para entrada de visitantes da Espanha. Afinal, diversos brasileiros estavam sendo barrados para entrar naquele país se não tivessem comprovação de recursos financeiros mínimos, local para estadia e passagem de volta. Tudo que o Brasil passou a fazer foi exigir o mesmo. Teve gente que falou: bobagem, deixa os espanhóis entrarem aqui. Não concordo. Se não podemos entrar lá, porque vamos abrir as portas e o coração para uns falidos metidos? Reciprocidade neles!

Agora, em Moçambique, estou a ver com meus próprios olhos um fenômeno que alguns amigos já tinham comentado: todos os dias chegam mais e mais portugueses tentando um lugar ao sol africano. Nos três primeiros meses de 2012 chegaram 2.500 portugueses só em Moçambique. Ê, pá! Mas afinal, que a terra subdesenvolvida parece estar melhor que a deles…

Na Europa já não há dinheiro nem empregos. Na África falta mão-de-obra qualificada, especializada em demandas modernas. Aí que os filhos da terra, que tiveram que sair quando da independência de Moçambique nos anos 70, estão agora a regressar, a vir ter aqui o que já não conseguem em terras de colonizadores.

Particularmente, acho bonita a mistura de gentes e acho saudável a troca de experiências e culturas. Só me preocupa quando vejo portugueses que aqui chegam cheios de preconceito, a reclamar dos diferentes hábitos de higiene (ou falta deles), educação e habilidades de raciocínio de alguns moçambicanos, como se de onde vêm não existissem pessoas com as mesmas dificuldades.

Reclamam por tudo e por nada, sem considerar que o diferente pode ser também certo, sem levar em conta diferenças culturais e, ainda, esquecem-se que seus antepassados, quando aqui chegaram contribuíram para deixar o povo moçambicano em tais condições, depois de séculos de dominação, a subjugá-los, humilhá-los e dar a eles maus exemplos. Que venham, mas não para isso de novo. Percebam que agora o que podem querer é uma parceria com os moçambicanos para todos crescerem juntos e aproveitarem as vantagens dessa terra maravilhosa.

Após escrever esse texto, li um e-mail que recebi da amiga e fiel leitora do Mosanblog Lucia Agapito, creditado ao escritor Isaac Asimov. O texto pode nem ser dele, como muitas vezes acontece nas coisas que circulam na internet e, dado ao precário acesso à internet que os dias cheios em Maputo têm me deixado, não fiz a pesquisa. Mas isso não é o mais importante e sim o conteúdo, que cabe bem para situações que vejo no dia a dia em Maputo: pessoas que não percebem a existência de diferentes inteligências e habillidades e se consideram superiores aos outros sem perceber que há muitas coisas que esses outros fazem e elas não seriam capazes. Será um melhor que o outro ou estamos todos aqui para nos completar?

Afinal, o que é inteligência?

Quando eu estava no exército, fiz um teste de aptidão, solicitado a todos os soldados, e consegui 160 pontos. A média era 100. Ninguém na base tinha visto uma nota dessas e durante duas horas eu fui o assunto principal. (Não significou nada – no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP – Kitchen Police).
Durante toda minha vida consegui notas como essa, o que sempre me deu uma idéia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.
Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder um tipo específico de perguntas acadêmicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência, e que provavelmente têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?
Por exemplo, eu conhecia um mecânico que jamais conseguiria passar em um teste desses, acho que não chegaria a fazer 80 pontos. Portanto, sempre me considerei muito mais inteligente que ele. Mas, quando acontecia alguma coisa com o meu carro e eu precisava de alguém para dar um jeito rápido, era ele que eu procurava. Observava como ele investigava a situação enquanto fazia seus pronunciamentos sábios e profundos, como se fossem oráculos divinos. No fim, ele sempre consertava meu carro.
Então imagine se esses testes de inteligência fossem preparados pelo meu mecânico. Ou por um carpinteiro, ou um fazendeiro, ou qualquer outro que não fosse um acadêmico. Em qualquer desses testes eu comprovaria minha total ignorância e estupidez. Na verdade, seria mesmo considerado um ignorante, um estúpido.
Em um mundo onde eu não pudesse me valer do meu treinamento acadêmico ou do meu talento com as palavras e tivesse que fazer algum trabalho com as minhas mãos ou desembaraçar alguma coisa complicada eu me daria muito mal.
A minha inteligência, portanto, não é algo absoluto mas sim algo imposto como tal, por uma pequena parcela da sociedade em que vivo.
Vamos considerar o meu mecânico, mais uma vez. Ele adorava contar piadas. Certa vez ele levantou sua cabeça por cima do capô do meu carro e me perguntou: “Doutor, um surdo-mudo entrou numa loja de construção para comprar uns pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse segurando um prego invisível e com a outra mão, imitou umas marteladas. O balconista trouxe então um martelo. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro negativamente e apontou para os dedos no balcão. Dessa vez o balconista trouxe vários pregos, ele escolheu o tamanho que queria e foi embora. O cliente seguinte era um cego. Ele queria comprar uma tesoura. Como o senhor acha que ele fez?”
Eu levantei minha mão e “cortei o ar” com dois dedos, como uma tesoura.
“Mas você é muito burro mesmo! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir”.
Enquanto meu mecânico gargalhava, ele ainda falou: “Tô fazendo essa pegadinha com todos os clientes hoje.”
“E muitos caíram?” perguntei esperançoso.
“Alguns. Mas com você eu tinha certeza absoluta que ia funcionar”.
“Ah é? Por quê?”
“Porque você tem muito estudo doutor, sabia que não seria muito esperto”.
E algo dentro de mim dizia que ele tinha alguma razão nisso tudo.
(tradução livre do original “What is inteligence, anyway?”)

Mateus foi roubado

Mateus é funcionário na escola infantil (infantário, como dizem por aqui) da minha amiga Sandra. Ele é personagem sempre de muitas histórias, especialmente, porque, como eu digo à minha amiga, ele é pura literatura. Faz as besteiras dele, mas explica isso com um português tão singelo, que tudo fica pelo menos inusitado.

O jovem deve abrir os portões da escolinha todos os dias. Manhã dessas, a Sandra chegou lá e o portão dos funcionários estava aberto, mas o das crianças entrarem ainda não. Sandra perguntou por ele e ninguém mais o tinha visto depois de abrir o portão dos funcionários.

Os meninos já iam começar a chegar, Sandra pediu que outro funcionário fosse atrás dele. Não estava em toda a escola, não estava no banheiro (ou casa de banho, como se diz em Maputo), foram procurar à casa dele, que fica mesmo atrás da escolinha.

Em minutos, Mateus aparece, vem da casa dele, pedindo desculpas: “Patroa, fui roubado, patroa”. “Mas como te roubaram, Mateus? Levaram a chave da escola?”. “Patroa, o sono me roubou”.

Eduardo já havia escrito outra história de Mateus. Veja lá no ElefanteNews.

Sucesso moçambicano

Há cerca de um ano eu deixava a direção da Academia de Comunicação, sediada em Maputo. A escola já estava a andar bem, os funcionários estavam treinados, era tempo do dono moçambicano assumir a direção e impor seu método de gestão.
Alguns meses depois, eu deixei Moçambique e, apesar de manter contato com algumas pessoas, não pude bem acompanhar tudo. Afinal, a distância é grande e a comunicação é difícil.

Estou de volta a Maputo pela primeira vez desde então. E para minha felicidade, em três dias aqui, encontrei três ex-alunos da Academia de Comunicação, cujas histórias muito me marcaram.

Hamina chegou na escola com muita vontade e determinação, com boa argumentação, mas com uma certa timidez que insistia em prevalecer sobre sua capacidade comunicativa. Chegou também quase sem dinheiro. Foi à minha sala tentar uma negociação. As inscrições para o curso de Técnicas de Reportagem estavam a encerrar e ela teria dinheiro só em alguns dias, mas queria muito fazer tal curso. Ela tinha alguns Rands (moeda da África do Sul), que propôs deixar como caução e em dez dias pagaria todo o valor em metical, como tinha que ser.

Naquele momento, percebi ali um talento e uma história verdadeira. Eu já tinha ouvido muitas e tinha sido obrigada a falar muitos nãos. Contra ela ainda tínhamos o fato do curso escolhido ser um dos mais caros. Afinal, Técnicas de Reportagem seria como um mini curso de jornalismo, um Jornalismo Básico de qualquer universidade. Ou seja, era um curso robusto e muito importante. Ao fim, Hamina conseguiu um acordo e em alguns meses concluiu o curso.

Outro dia chegou à escola o pai de um pretendente a aluno e pediu para falar comigo. Ele tinha visto a propaganda que eu fazia na televisão e achou que estava ali o futuro do filho. Mas ele não tinha dinheiro naquele momento, porque precisaria fazer um empréstimo no banco para conseguir o valor. As aulas já iam começar e ele me pediu uns dias para trazer o dinheiro, sem prejuízo da presença do Zefanias no curso de edição de vídeo. Esse era um curso muito procurado, o professor era Orlando Mesquita, um dos mais respeitados (senão o mais) profissionais da área em Moçambique. Se Zefanias começasse o curso e não pagasse, eu teria perdido uma vaga que com certeza seria preenchida por outro. O pai me mostrou o crachá do trabalho para me dar confiança e foi de uma sinceridade que me convenceu. Antes de vencer o prazo que eu tinha dado a ele para pagar ou o filho não poderia continuar o curso, veio me visitar a mãe do Zefanias. Trouxe um envelope cheio de notas. O empréstimo saíra e eles estavam a pagar o curso todo sem parcelar.

Então, veio o Hermenegildo. Fez a matrícula e começou as aulas, colega de Hamina, no curso de Técnicas de Reportagem. O professor do curso era Ricardo Botas, experiente jornalista sênior, ótimo professor, mas com uma didática bastante diferente da tradicional à qual os moçambicanos estão acostumados. Hermenegildo deu trabalho. Na primeira semana queria o regulamento interno da escola. Por ser uma escola muito nova, o regulamento ainda estava a ser adaptado a algumas regras dos órgãos oficiais e não estava publicado. Era uma pendência que seria resolvida rapidamente. Mas, enquanto não foi, Hermenegildo batia à porta da secretaria quase todos os dias a pedir o documento.

Além disso, a didática pouco convencional do professor também foi motivo de questionamentos por parte do jovem. Mas eu via ali um perfil de alguém realmente capaz de ser um jornalista como poucos há em Moçambique: questionador, independente, ousado. Driblamos as dificuldades com ele até o final de todos os módulos e o jovem conseguiu seu certificado.

Agora, ao retornar a Moçambique, encontrei Hamina. Uma outra mulher. Quase não a reconheci. Mais forte, com a cabeça erguida, feições confiantes. Trazia consigo alguns exemplares do jornal Público, para o qual escreve regularmente, às vezes mais de uma matéria na mesma edição, várias assinadas.

Junto com Hamina, estava o colega Hermenegildo. Com este eu havia mantido algum contato, porque ele, depois de formado na Academia, me tinha sido indicado pelo professor Ricardo para um trabalho de pesquisa que eu faria e continuei a fazer a partir do Brasil. Então, troquei alguns e-mails com ele nesse tempo. Sabia que ele tinha conseguido vaga em um jornal de esportes, onde recebia até um bom salário. Infelizmente, há algumas semanas o jornal fechou. Agora, está a dar aulas de português e tem a certeza que outros jornais virão. Eu também.

Depois, fui visitar uma importante produtora de vídeos estabelecida em Maputo e encontrei Zefanias trabalhando, como profissional do quadro da empresa. Fiquei muito feliz em ver que o sacrifício do pai dele foi compensado. Eu me sentia responsável, não só pelo fato de ser a diretora da escola, mas por ele ter insistido que eu o convencera com a propaganda na televisão e por ele ter precisado fazer um empréstimo ao banco para conseguir garantir o estudo do filho. Tudo isso ficou pequeno diante do grande caminho que Zefanias está seguindo.

Tenho certeza que esses três exemplos que encontrei nesses dias são apenas alguns de muitos que tiveram suas vidas encaminhadas para o difícil mercado de trabalho de Moçambique, a partir da passagem deles pela Academia de Comunicação, uma empresa 100% moçambicana.

matéria pescado
Matéria de Hamina Lacá no jornal Público de 16 de abril de 2012, onde ela conta como mudanças climáticas podem estar causando escassez de pescado em Maputo e afetando toda uma comunidade

Mudanças acontecem. Devagar…

Um dos blogs que eu mais gostei de conhecer quando vivia Moçambique e em Moçambique foi o Devagar… A gaja para além de escrever muito divertidamente, pegou bem o espírito da vida aqui e sabe traduzir como ninguém as sensações de quem se vê obrigado a viver em um outro tempo. Eu mesma também tentei em alguns textos mostrar o conflito de quem está a andar num ritmo diferente dos outros e minhas tentativas de me adaptar, o que, até certo ponto, consegui bem.

Agora, chegar a Moçambique depois de meio ano é interessante porque fez perceber mudanças que talvez nem notasse no dia-a-dia, justamente por causa da velocidade mínima na qual elas acontecem.

As ruas continuam sujas, muito sujas, com o vento provocando rodamoinhos de plásticos pretos e poeira que se enroscam em suas pernas enquanto você anda pela cidade. Os artesãos continuam a te seguir pelas ruas, a pedir para comprar qualquer coisa e ao final a te oferecer tudo que têm nas mãos pelo preço inicial de uma peça, para poder ter algum metical para almoçar. A internet continua lenta, bem lenta, e cara, muito cara. As novelas brasileiras continuam a dominar a televisão local e os assuntos nos salões. A rede de celular a toda hora está busy (ocupada). O movimento nas ruas é muito, uma leva de desempregados com fome a vender crédito de celular, tomates, bananas, roupas usadas, na tentativa de movimentar um pouco a economia e garantir a sobrevida. As gambiarras da empresa de energia de Moçambique (EdM) estão por toda parte e alguns postes ainda “ardem” quando começa a noite e o maior uso de energia nas casas.

Mas houve mudanças. Ao entrar no país, minha mala chegou no mesmo vôo que eu, não foi aberta na alfândega, eu passei na imigração tranquilamente e entrei no país sem gastar nenhum dinheiro a mais do que estava previsto nas regras. A obra de reabilitação do Mercado Central de Maputo, que começou pouco antes de eu partir está quase pronta e as barracas, que tinham sido transferidas para a área externa do mercado, em breve vão estar de volta ao pátio interno renovado. Tudo dentro do prazo previsto. Há aqui e ali alguns pontos de internet wi-fi que até funcionam nos cafés e principais jardins de Maputo. Os preços de alimentos e transporte não tiveram alta significativa, especialmente, os de primeira necessidade.

As mudanças acontecem. Talvez mais visíveis para quem se afastou por um tempo, porque são devagar, mas acontecem.

Published in: on 03/07/2012 at 11:38  Comments (6)  
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A primeira vez da portuguesa

É sempre divertido ver as pessoas passarem por situações de aperto às quais nós já superamos. Especialmente, se conseguimos rir de nós mesmos quando passamos por tais situações.

Quando cheguei em Maputo agora, minha amiga Sandra estava a me esperar no aeroporto e com ela estava uma portuguesa que chegara minutos antes. A nossa diferença com relação à Moçambique é que eu tinha estado aqui em 2010 e 2011 e ela, apesar de ter nascido em Moçambique, saiu ainda criança e nunca mais voltou.

Assim, ela vai agora explorar um lugar que eu já conheço bem. E vai ter que viver algumas situações semelhantes às que vivi. Por exemplo, é impossível não lembrar como foi minha adaptação à direção com a mão inglesa no trânsito.

Escrevi até os textos Conduzir na mão inglesa não é fácil e Estamos todos ilesos sobre o assunto, afinal, foi um momento marcante para mim. Pois não é que a portuguesa, muito mais corajosa que eu, em seu segundo dia aqui, já se colocou a conduzir? E pegou logo uma pick-up, tamanho muito grande, com marcha manual.

Eu nem tinha me orientado ainda na vida por conta do fuso-horário e da viagem de mais de 15 horas de um dia antes e me aventurei no carro ao lado dela. Primeira viagem e fizemos logo o trajeto Maputo – Matola (cidade vizinha a cerca de 20 quilômetros), no fim da tarde, hora de pico no trânsito.

Vamos lá.

Mas não é que ela se saiu muito bem? Claro que o braço direito bateu na porta do carro umas duas ou três vezes, a procura da marcha. Na primeira vez que isso aconteceu, lembrei logo de uma das coisas que o instrutor da auto-escola mais falava nas aulas que fiz antes de me arriscar sozinha no trânsito (sim, sou desse tipo covarde…): “Quando pegas um carro para conduzir do lado contrário, tens que prestar muita atenção no tamanho carro”.

É muito difíci quem dirige à mão francesa, quando pega um carro à mão inglesa, conseguir perceber seu tamanho para a esquerda, perceber onde termina o carro ao lado do passageiro. Isso é, de fato, uma das coisas mais complexas, porque é fazer seu cérebro ter uma percepção espacial contrária a que está acostumado e é um exercício difícil perceber logo as dimensões do veículo.

Alertei para minha mais nova amiga sobre a importância de estar atenta ao espaço que o carro ocupa à esquerda. Parece que graças à lembrança de alertar isso, não levamos nenhum espelho de carro alheio para casa.

Outra coisa que vi muito no trajeto foi o uso do limpador de pára-brisas. Não, não chovia. Mas a confusão entre a alavanca das setas e a do limpador de pára-brisas é certa. Não conheço uma pessoa que tenha pego carro em mão contrária que não passou por isso.

Também houve a graça de uma destra se sentir fraca para trocar a marcha com a mão esquerda e a dificuldade de entender como arranjar os espelhos.

Mas, fora isso, que considerei mais que normal, e colocando a favor dela estar no segundo dia no país… acho que ela já não oferece perigo nas ruas de Moçambique. Aliás, está a merecer parabéns pela coragem e ousadia.

O outro alerta valioso que dei a ela, depois dos parabéns, foi para tomar muito cuidado a partir do momento que estiver a se sentir confiante. Porque também é muito comum, nessa hora, já tranqüila a achar que domina tudo, entrar na contra-mão e só se dar conta quando vier um carro na sua direção. Fica a dica.

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